A menina que matava caracóis

Filosofias úteis, inúteis e outras coisas que você pode não precisar.

Vitória

gárgula

“Eu vim para vencer, lutar, conquistar, prosperar,
Eu vim para vencer, sobreviver, prosperar, erguer-me,
Para voar

Eu queria que hoje chovesse o dia todo
Talvez isso meio que fizesse a dor ir embora
Tentando te perdoar por me abandonar
Mas ainda acho que sou um anjo distante
Um anjo distante, estranho de certa forma

Deve ser por isso que persigo estranhos
Eles pegam suas armas e miram em mim
Mas eu me aproximo quando miram em mim

Eu, eu contra eles
Eu contra inimigos, eu contra amigos
De alguma forma, ambos parecem tornar-se um
Um mar cheio de tubarões, todos eles farejam sangue

Eles começam a chegar e eu começo a subir,
Deve ser surpreendente, sou apenas conjecturas,
Vencer, prosperar, planar, mais alto, mais alto
Mais fogo

Todos tentam me encaixar
Sufocante sempre que me trancam
Pintam as próprias imagens e depois tentam me enquadrar

Mas ficarei onde começa o topo
Pois não sou uma palavra, não sou um verso,
Não sou uma garota que pode ser definida

Não sou um voo, sou uma levitação
Represento uma geração inteira,
Ouço as críticas em alto e bom som
É assim que sei que a hora está perto

Então tornamo-nos vivos numa época de medo
E não tenho tempo a perder
Chorando demais dia após dia
Um fardo tão pesado posto sobre mim
Mas quando você trabalha duro seus ‘nãos’ viram ‘sims’

Prepare-se para isso,
Eu vim para vencer

Eu vim para vencer, lutar, conquistar, prosperar
Eu vim para vencer, sobreviver, prosperar, erguer-me
Para voar
Para voar”
Fly – Nicki Minaj feat. Rihanna

Meu corpo é oco para cuidar da incrível fonte de luz que se abriga em meu ser. É uma esfera média, amarelinha como uma chama de vela, que irradia em ondas círculos de luz. Ao mesmo tempo em que me esvazia, me preenche de uma substância abstrata, de um ar diferente, exclusivo. Uma nuvem que cheira à erva cidreira, perfumando-me interna, tornando-me um ponto de esperança. Ela é um complemento de mim, renovação da minha fé em lutar sem parar – porque mesmo quando cessamos por um intervalo, nos preparamos para a próxima leva. Sentados num saco de estopa, deixados no deserto. Esperam que morramos por cobras, mas vão se decepcionar. Porque vamos sobreviver. Não de um modo vitorioso por esperança e – estranhamente – por também desespero; será uma vitória gloriosa, iluminada, extremamente intensa. Vamos erguer nossas espadas sujas de areia, o sol nos queimando até os ossos.  Nem seu corpo aguenta fisicamente – mas você está lá para vencer. Para mostrar a todos que nenhuma das tentativas de descrédito por medo e crueldade te derrubou. Você olha a luz ardente no céu, deixando lágrimas escorrerem muito rápidas pela luz que te desidrata o cristalino e pela glória dourada que conquistou. Heroica. Hercúlea. Você grita, ri, cai em prantos numa euforia maravilhosa de não saber o que fazer! A energia é tanta, a felicidade pura e genuína é tão grande que as únicas palavras nas quais você pensa são Eu consegui. Depois de tudo, depois de chorar tanto, de me quebrar, de gritar de dor e desespero. Depois de tantos esforços, depois de tanto desejar desaparecer com a poeira no ar, de não existir. Depois de tudo – TUDO – eu consegui. Eu provei a todos, e ainda melhor, a mim mesma que posso, que estou aqui, que sou incrível e heroína de mim mesma. Você soluça, descontrola a respiração, grita pelo amor, pela alegria de saber disso tudo. De saber que você não é um peso insignificante. Que tudo é tão lindo e perfeito. Por perceber o quanto você é forte, o tamanho da sua fé. O alívio e os sorrisos mais verdadeiros do mundo saem na respiração, doendo demais ao raspar nos brônquios, na garganta – porque você não quer deixá-los sair NUNCA. Eles são seus, você é de si mesmo, o mundo é seu se desejar – não por pertencer, mas por você se pertencer. Os olhos já cansados baixam para enxergar suas mãos entre o pó no chão. Já ajoelhado, sentindo seu corpo inteiro trêmulo, você prende o ar dentro e torna a chorar, mais e mais. A felicidade extrema é tamanha que não é possível pensar na melhor maneira de extravasá-la. Você simplesmente a sente e chora como uma criança, verdadeiramente, sem preocupações, sem receios. Chora de verdade, sentindo cada lágrima singular abrir caminho entre os poros. Como uma criança… Um corpinho quente e frágil, que não entende direito o que sente. E é tão bom. Tão libertador, tão glorioso quebrar as próprias correntes.

Príncipe das Cruzadas

Altair3(Devidos créditos ao Lucas Elder pela dica de imagem)
(Sim, o texto é sobre o Altair, do AC. Mas o eu-lírico não sou eu)

Começa pelo olhar a sensação que me causa: uma rajada fina e retilínea que me corta abruptamente, num tiro pela íris, como um projétil que penetra num lago escuro de água densa. A imagem dele – um homem robusto, forte, bruto – que me encara num ângulo incisivo e sensual. Sua respiração quente complementa o mormaço desértico que lhe seca a pele. Ele rufa discreto e marcante em toda a violência de seu corpo, destroçando-me no prazer da dor de senti-lo em mim sem nem mesmo me tocar. É de propósito, porque sou submissa a ele; sou sua apenas se ele permitir e, ao mesmo tempo, sei que também deseja ser meu. Ele. Até a palavra me soa quente na boca. A saliva fervente, meu corpo quer sua língua na minha. Anseio desesperadamente pertencer, sucumbir aos seus lábios ásperos que acariciam minha pele, esfolando-a, escapando-me gemidos mesclados de orgasmo e laceração. Posso sentir meus músculos retesarem enquanto a respiração fremente vibra os lábios, soprando calor em seu ombro. Ele gosta, goza na vulnerabilidade de meu ser perante sua presença. O controle, o domínio sobre a fragilidade. E, de repente, estamos distantes do mundo numa sala infinita de paredes de escuridão; a poeira morna nos envolvendo, acolhendo-nos no breu como se fosse nossa única proteção – a singular garantia de que estamos juntos sem perigos. A penumbra nos reconhece como um só num abraço de toque incompleto, áspero, grosseiro, envolvente e trêmulo, este por minha parte – pois ele é firme, meu príncipe das Cruzadas, oculto, poderoso, titânico. Sua magnitude para comigo é macia e protetora, numa quietude bruta habitual e nervosa. Sua rispidez, seus mistérios, me instigam, atraem, excitam.

Só então percebo que ele está à espera de minha despedida. Não podemos nos tocar, sequer aproximarmos mais que alguns metros; não devemos nos desejar colados um ao outro, num cotidiano comum e alegre, perfeito. Somos o segredo da humanidade, um ponto cego tortuoso e cruel, atroz em cada chibatada – pois ele é um príncipe das sombras sob o sol, sem nome, sem rosto, filho de ninguém. E eu, a plebeia, predestinada, comprometida, corrompida pelo proíbio da paixão. Também escondida, sou mais que uma mulher comum, herege às regras padrões. Nenhum de nós pode ou deve ser descoberto. Nenhum de nós deveria lembrar que se conhece. Ele me apressa, não querendo ir sem que eu note, imersa na perdição. Olho-o preocupada; rezo interna, apreensiva por sua volta incerta. Então, numa conexão íntima e única, intensissíssima – mais forte até que sua imponência – ele se vai, deixando em prantos nossas almas, os olhares. Num salto rodeado por uma liberdade indesejada, ele some, se esvai. E os segundos que me estrangularam o coração agora o parte em pedaços sangrentos, numa corrente de espinhos.

Coração de chumbo

libertação

“Posso quase vê-lo
Aquele sonho que estou sonhando
Mas há uma voz em minha cabeça dizendo
‘Você nunca o alcançará’

Cada passo que tomo,
Cada movimento que faço
Parece perdido em nenhuma direção
Minha fé está chacoalhada
Mas eu preciso ser forte
Preciso manter minha cabeça erguida alta

Sempre haverá outra montanha,
Sempre irei querer movê-la
Sempre haverá uma batalha difícil
Às vezes precisarei perder
Não é sobre quão rápido chegarei lá
Não é sobre o que há do outro lado
É a escalada

Os esforços que estou enfrentando
As chances que estou tomando
Às vezes podem me derrubar
Mas não, não vou quebrar

Posso não saber,
Mas esses são os momentos que lembrarei mais
E eu, eu preciso ser forte
Apenas continuar insistindo porque

Sempre haverá outra montanha,
Sempre irei querer movê-la
Sempre haverá uma batalha difícil
Às vezes precisarei perder
Não é sobre quão rápido chegarei lá
Não é sobre o que há do outro lado
É a escalada

Continue em movimento
Continue escalando
Mantenha a fé
Querido
Mantenha a fé
Mantenha a sua fé”
The climb, Mily Cyrus

As lágrimas que derretem por mim não são pesarosas nem tristes. São lágrimas fortíssimas e poderosas que expulsam de mim todos os resquícios do fardo que carregava. Nada mais salgado sobre dentro. Meu coração de chumbo, sinto seu peso afundar o seio, bombear metal para as veias, encher meu sangue de garra e energia. Agora sei que sou forte, forte de verdade – porque sinto isso genuinamente, na melhor expressão do sentimento. Sinto seu peso físico, a leveza emocional que me faz pairar no ar. Tudo o que derramei hoje, toda a maquiagem escorrida na fronha, tudo valeu a pena, pois foi esse meu golpe de misericórdia. Consigo até sentir a lâmina de minha espada penetrando e rasgando cada camada de carne de meu adversário, de todos os muros e obstáculos, de toda a energia que me quis mal. Livre, enfim!, grito na rouquidão do máximo da voz, seguindo uma risada de felicidade estridente! Não existem mais pesos em mim. Não existem mais pequenas pedrinhas que mantém meus pés no mesmo lugar. Sinto-me leve e sou livre! Não por uma libertação de desespero e desilusão, mas por uma catarse purificadora maravilhosa! Todas as impurezas, todos os pesos de ferro saíram de meu sangue. É vero que ainda vejo suas marcas sombreadas em cinza, mas não é algo a me fazer mal – pois cicatrizes só mostram quão longe você chegou. E ainda quero ter cicatrizes. Elas doem, muito. Mas só na hora de surgirem. Anseio olhar-me no espelho,ver meu corpo repleto de marcas e pensar: “Meu deus… Eu consegui. Eu passei por tudo isso e ainda estou aqui.”. Eu não desisti porque sou uma guerreira. Não uma heroína especial, sou exatamente como vocês. Apertem bem os olhos se quiserem e sintam. Sintam o brilho dourado que há bem no seio, na curva do peito. Ele é pesado porque é forte – e não porque é feito de culpas e erros. Erros só fingem ser pesados – e são mentirosos – porque são tão leves e frágeis que precisam de máscaras para encobrir sua vulnerabilidade. Mas se você os desafiar e usar sua própria força contra eles, correrão aterrorizados por seu poder. Você é forte. Você é brilhante e incrível. Todos temos medos inderrotáveis, erros, arrependimentos. E sabe o que são eles? São caminhos que a crueldade invejosa do mundo encontrou para reprimir seu verdadeiro tamanho – porque é ela que tem medo. Teme você descobrir do que realmente é capaz. Todos vocês são lindos, incríveis, maravilhosos e encantadores. Cada qual com seus saberes a reter e a passar adiante. Cada qual com suas habilidades e peculiaridades belíssimas que lhe destacam em meio a qualquer multidão. Somos unidos em sermos todos únicos. Todos humanos, pessoas. A depressão, a tristeza genuína, está em todos nós – e parece, mas não é, arrebatadora. Ela é simples e, se você olhar lá dentro, não sabe exatamente onde precisa chegar para derrubá-la – mas tenho certeza de que você está tentando. Não importa se pensa que está conseguindo ou não – tentar já muda tudo. E se tentar, passará por dores maiores ainda, advirto. É verdade. E o fará por estar enfrentando a fúria da maldade tortuosa do mundo; mas ela está desesperada, temendo em completo pânico por ver que você está no caminho certo para descobrir a verdadeira luz que tem em si! Não importa quem você é, de onde veio, no que acredita. Lembre-se SEMPRE que você é uma pessoa como qualquer outra: nem mais nem menos. E que se, algum dia, seus pesos parecerem maiores do que sempre foram ou do que realmente são é porque suas tentativas estão dando certo.

Asfixia

fine

“Estou tão cansada que não consigo nem chorar.”
Amy Whinehouse

Não aguento mais, não consigo suportar. Qualquer um pode ver que estou desesperadamente pedindo por ajuda. Em cada tom da íris, em cada análise cotidiana, em cada palavra e gesto. E parece que todos simplesmente ignoram, não veem, mudam de assunto. Eu queria ao menos uma vez na vida ser o centro de todos os dilemas, o mais importante e o mais preocupante. Só uma, apenas para que deixassem brevemente suas vidas de lado e olhassem a minha, prestassem atenção em mim sem julgamentos, com pura compreensão. Mas tudo o que sinto, tudo o que tento para melhorar – nada parece ter valor. Nada que faço parece funcionar. Ninguém enxerga o que está acontecendo comigo! Eu estou tentando e estive durante todos esses anos, as parece que os problemas só vão se acumulando! No final, não sinto que mudei realmente algo em mim, que sou uma pessoa melhor. Sinto-me esquecida, sozinha, cheia de pesos e responsabilidades, carente, angustiada, desesperada, com uma vontade gigantesca de gritar. Causo mal às outras pessoas, às que eu amo. Odeio, me culpo. Por que tudo isso está acontecendo comigo? O que fiz de errado? O que cresci errado? Por que não posso simplesmente levar uma vida normal como as das outras pessoas?

Em cada dizer, um detalhe, um ponto final – é uma tentativa insana de mostrar que não estou bem. Mas acho que ninguém percebe, e isso me frustra tanto. Somente assisto, indiferente e neutra, anestesiada pela dor; vejo meu corpo, meu rosto, se destruir, cair em ruínas, despedaçar. Eu só queria que me perguntassem se estou bem, sem eu precisar falar explicitamente.  Eu só queria sentir – mesmo que superficialmente – que se preocupam com meu estado. Que apenas compreendem e me abracem, repletos de pena e compaixão. Que choram junto a mim. Que não são fortes por um mínimo instante. Que sofram comigo. Que enxergam que estou diferente. Que existe um nó que me asfixia na garganta. Nó de uma corda grossa que sinto descer até o peito, entrando nos pulmões. A sensação é de um fio de cabelo sendo tirado da boca: você sente toda a trajetória tortuosa e aflita, a vontade de que aquilo saia logo do seu corpo. Meu nó nunca sai. Nunca. Só vai aumentando e aumentando…

Prisioneira silenciosa

Silêncio

“Ninguém sabe
Ninguém sabe além de mim
Que às vezes eu choro
Se eu pudesse fingir que estou adormecida
quando minhas lágrimas começam a cair
Espio por trás dessas paredes
Mas acho que ninguém sabe

Ninguém gosta
Ninguém gosta de perder aquela voz interior
A que eu costumava ouvir
antes de minha vida tomar uma escolha
Mas acho que ninguém sabe

Baby, este segredo está a salvo comigo
Não há outro lugar no mundo onde eu poderia estar
E, baby, não sinta como se eu estivesse toda sozinha
Quem estará lá quando o último anjo voar?
E eu perdi meu caminho de volta para casa
Mas acho que ninguém sabe
Ninguém sabe

Ninguém se importa
É ganhar ou perder, não como você joga o jogo
E a estrada para a escuridão tem um jeito
de sempre saber meu nome
Mas acho que ninguém sabe

Baby, este segredo está a salvo comigo
Não há outro lugar no mundo onde eu poderia estar
E, baby, não sinta como se eu estivesse toda sozinha
Quem estará lá quando o último anjo voar?
E eu perdi meu caminho de volta para casa
Mas acho que ninguém sabe
Ninguém sabe

Amanhã estarei lá, meu amigo
Acordarei e começarei tudo de novo
quando todo mundo já tiver ido

Ninguém conhece
Ninguém conhece o ritmo do meu coração
O modo que faço quando estou deitada no escuro
E o mundo está adormecido
Mas acho que ninguém sabe
Ninguém sabe, além de mim”
Nobody knows – P!nk

Eu queria chorar. Chorar de verdade. Gritar de ódio e de tristeza, sentir a dor do luto me destruir de dentro para fora, acabar comigo. Queria chorar tanto que meus pulmões se rasgariam de tão ofegantes. Chorar até não conseguir nem respirar. Chorar como se fosse condenada àquilo, como se não soubesse fazer algo diferente. Não quero tentar me aliviar reprimindo o choro em silêncio durante a noite. Não quero enxugar lágrimas para que ninguém as veja. Não quero forçar uma voz normal para que não me perguntem o que está havendo. Quero chorar como se não houvesse amanhã, quero tirar da gargantas todos esses nós cheios de espinhos, que me arranham desde a laringe, cravando-se teimosos em meu coração. Eu não os controlo. Na verdade, não controlo nada. É como se… Eu estivesse presa não num corpo, não numa vida – mas na alma. Um espírito acorrentado, escondido de todo mundo, num calabouço completamente vazio. Sem visitas, sem soberanos, sem carcereiros. Inteiramente solitário. O silêncio mata. A dor destroça. A beleza pálida do vazio após o choro. O alívio falso que cobre os sentimentos até que não haja mais vida em mim. O silêncio que me toma por completo e me prende. Meu silêncio tão precioso. Meu silêncio que é o meu grito mais forte. Minha alma me arranca de tudo aquilo que anseio. Minha própria alma, cruel e vil, sádica e arrependida. Posso sentir o corte em seu peito ao ver-me desmanchar em tristeza e culpar a ela e culpar a mim por uma realidade tão horrorosa. Parece que respirar é contra as regras, como se eu estivesse cometendo todos os erros possíveis. Como se eu fosse boa para nada. Sou fraca e ridícula e quero guardar isso para mim, porque todos os outros são diferentes. Todas as outras pessoas são mais fortes, são incríveis. E há eu. Daria tudo para ser qualquer garota fútil por aí e não ter essa profundidade de espírito – assim, ao menos, poderia não sentir essas coisas. Eu quero ser feliz. Não plenamente nem para sempre. Apenas feliz. Não quero planos nem fugas, eu só preciso do cotidiano para ao menos fingir que está tudo normal, que nada mudou. Isso me faz sentir mais forte. Eu quero um abraço, um beijo simples, um olhar, qualquer palavra carinhosa. Preciso sempre me fortificar antes de agir, porque eu não sei pensar rápido. Não sei montar estratégias. Quero fazer ao menos uma pessoa feliz, apesar dos meus pesares. Quero sentir e provar a mim que sei, sim, que decisões tomar; que sou uma pessoa boa; que não machuco ninguém; que sei seguir minha força interior. Mas eu não sei. E tudo se perde.

A alma que se afoga

lma

“Eu tenho olhado para um espelho por tanto tempo
que comecei a acreditar que minha alma está no outro lado.

Todos os pequenos pedaços caindo, destruídos.
Pedaços de mim pontiagudos demais para pô-los de volta
pequenos demais para importar,
mas grandes o bastante para me cortar em tantos pedacinhos se eu tentar tocá-la.

E eu sangro, eu sangro.
E eu respiro, eu respiro não mais.

Tomo fôlego e tento respirar do poço de meus espíritos.
Mais uma vez você se recusa a beber, como uma criança teimosa.
Minta para mim e me convença de que sou doente desde sempre
E tudo isso fará sentido quando eu melhorar.
Mas eu sei a diferença entre mim e meu reflexo,
apenas não consigo evitar de ficar me perguntando
qual de nós você ama.

Então eu sangro, eu sangro
e eu respiro, eu respiro
Eu sangro, eu sangro
e eu respiro, eu respiro,
eu respiro, eu respiro não mais.”
Breathe no more – Evanescence

Olho a luz do sol na superfície d’água e moldo os olhos numa despedida desesperada. Não consigo chorar, não consigo gritar. Sinto a pressão da água me envolver, apertar-me contra meu próprio corpo, pressionar meu peito. Não posso nem gritar um adeus. Estar tão perto e estar ao mesmo tempo tão longe, nunca fez tanto sentido. O sol distorcido pelo meio líquido se gaba por um dia maravilhoso, morno e alegre, recheado de crianças sorrindo e gente correndo para lá e para cá – e ninguém sabe que estou aqui. Ninguém. No fundo do mar, enxergo a todos, mas nenhum deles me vê sequer. Sou um segredo submarino. Quiçá alguém esteja me procurando, mas não vai encontrar, porque não olham para  água. O sol não tem nem a decência de me esquentar aqui embaixo. Ele me esnoba, esfregando em minha cara tudo o que ele tem que eu jamais terei. Afogo-me vendo todos ao redor respirarem. Morrer dói. Mais que fisicamente, morrer dói. A vida não é o que você esperava; você sabe que pode consertar porque sente a energia explosiva e devastadora que existe dentro de ti, iluminando seu ser inteiramente! Você sabe que é forte, sente o poder luminoso – e não fez nada. Nenhuma tentativa sequer. Deixou a vida fluir como água, levando-te para onde quer que fosse. Morrer dói. Então, desisto de lutar. Meu corpo relaxa, minha garganta se cala. Não preciso mais chorar, não preciso mais gritar. Com os lábios entre-abertos, olho ao redor com olhos vazios e vejo a poeira na água escura arrepiar meus pelos de frio. Sinto minhas mãos flutuarem livremente sem qualquer força para intervê-las. Entrego o corpo, mas mantenho a alma. Ainda que completamente sem mais essência e peso, guardo-a comigo para morrermos juntas. Para que não digam que não tentei. Não a sinto mais em mim, mas acho que também nem tento muito. Eu a procuro e perco-me na escuridão do eco de meu ser. Meus cabelos dançando como bailarinas na água, sinto-os levitar. Na verdade, seria bom chorar a dor agonizante de sangrar. Destruir-me ao máximo da tristeza verdadeira. Não tenho mais âmago, não tenho mais nada. Sou um corpo oco. Enfim, um tubarão se aproxima. Olho-o na súplica de um golpe de misericórdia. Mate-me, por favor, porque já não aguento mais isso. Mas ele não entende, é um tubarão. E em seus olhos frios, ele expande a mandíbula e me rasga, desgraçando e arrasando a carne que restou em mim. Somente carne. Porque a alma que se afoga tranca o peito e morre – não de verdade, não por inteiro – perdendo-se na desilusão da essência que um dia tomou como sua.

Breve expressão da tristeza

heart

Garotinha, garotinha, por que está chorando?
Dentro de sua alma sem descanso,
seu coração está morrendo.

Quando ela era apenas uma garota
ela tinha expectativas sobre o mundo
Mas elas voaram do seu alcance
E ela fugiu em seu sono
Sonhava sobre o paraíso
toda vez que fechava os olhos

Quando ela era apenas uma garota
ela tinha expectativas sobre o mundo
Mas elas voaram do seu alcance
E balas pegas com seus dentes

A vida continua,
fica tão pesada,
a roda quebra a borboleta
Cada lágrima, uma cachoeira
Na noite,
na noite tempestuosa,
ela fechou os olhos
Na noite,
na noite tempestuosa,
ela voou para longe
E sonhou com o paraíso,
ela sonhou com o paraíso

Ainda deitada abaixo dos céus tempestuosos
Ela disse
“Oh, eu sei que o sol está pronto para nascer”
Isso poderia ser o paraíso

Paradise – Coldplay

Algum dia eu vou voar para bem longe e ninguém vai me encontrar nem perceber nem sentir minha falta. Na verdade, acho que não me importo se me tiverem saudade. Num toque cruel em meu âmago, eu desejo que sofram com minha ausência. Que chorem e se arrependam. E notem o que deixaram de fazer e o quão importante eu era a eles. Que se corroam por dentro remoendo atos terríveis e devastadores. Que seus corações se tornem náufragos de uma tragédia brevemente irreversível. E depois tudo ficará bem, porque não sou de inteiro má. Ninguém vai se lembrar de mim e, embora isso me cause tristeza de choro, estarei bem. Porque estarei comigo e com quem amo incondicionalmente. Estarei bem por respirar serenidade pura. Estarei bem porque não terei outra opção. Porque, se eu mesma não me importar comigo, ninguém se importará.

Heroína de mim

freedom

Não escrevo bem. Escrevo meus olhos, meu cérebro e meu coração. Escrevo para gritar ao mundo o que não posso sussurrar no ouvido de uma úncia pessoa. Escrevo para que saibam quem realmente sou. Escrevo porque esse é o meu canto de vitória, meu extravasar da alma. Pois sou alguém preso. Alguém preso em si mesmo, que se debate pelas paredes gritando “Soltem-se, por favor!”. Grito esvaziando completamente meus pulmões, até que não tenho mais forças para sustentar meu corpo e deixo-o cair no chão, exaurida. Chorando. Eu liberto uma parte de minha alma cada vez que choro. Libertando-a liquefeita até evaporar-se pelo ar e espalhar-se pela Terra. Não morro em partes, eu vivo aos poucos. Não importa o que aconteça, caso eu siga na vida ou na morte, eu só quero sentir minha alma dentro de mim. Na essência que eu sei que é extremamente alegre e inteiramente vitalícia! Na força e no brilho maravilhoso e colorido que é a vida! E quando, no carro lotado, ponho meus fones e permito que a música penetre em mim; quando reprimo minhas lágrimas e quando sinto meus desejos à flor da pele, num turbilhão de ar e sedimentos nas traqueias; quando olho pela janela do auto e as placas da estrada não me são mais objetos cotidianos; quando vejo a mágica em cada pedaço do mundo; eu sou um universo. Um universo inteiro dentro de um carro de quarto portas, rodeado por gente que nem sabe o que está acontecendo. Devo confessar que é algo divertido e levemente cômico de se passar. E incrível também, pois sinto-me especial. Porque sou especial. Sou uma galáxia repleta de constelações lindíssimas e inacreditáveis, que variam entre tons de  rosa, branco e lilás. Os arcos prateados que se formam exibindo orgulhosos e acolhedores sua cor branca brilhante. Sou eu. Sou eu novamente. É a ponta da minha alma. E sinto-a explodindo num grito, num sorriso, num choro devastador de tanta intensidade maravilhosa! Choro de alegria, eu consegui! Eu sei que vou conseguir, porque minha alma clama por isso há tempos! Sou aplaudida, aclamada, erguida pelas mãos do povo! Todos me querem porque sabem quem eu sou. Porque eu tenho aquela força maravilhosa que todos desejamos ter. E eu sei que tenho. E eu sei que vou conseguir. Vou olhar os céus em seu azul-claro sereno e nuvens imponentes, sentindo o calor do sol nas costas e atrás do rosto, retorcer um pouco as sobrancelhas e chorar suave. Não preciso te encontrar obrigatoriamente, você simplesmente saberá que consegui. E quando nos encontrarmos, vamos nos abraçar com toda a força que nunca tivemos e choraremos um no ombro do outro, pela alegria genuína sem explicação. A partir daí, todos os dias serão ensolarados. Eu nunca mais serei essa prisioneira submissa que já me ensinou tanta coisa, mas que agora precisa ir embora. Serei minha e toda minha. E escreverei para gritar ao reprimidos o que precisam. Escreverei para expressar minha gratidão a esse meu espaço que me acolheu por tanto tempo. Escreverei para mostrar a todos que é possível. Escreverei para mostrar quem sou, para que a boa nova se espalhe. Para que o mundo fique cada vez mais lindo.

Suserana

samurai girl

Não vou cair, prometo. Não vou cair porque cair significa te levar junto – e não posso, em hipótese alguma, fazer isso com você. Não posso tirar de você tudo o que você tem, como às vezes sinto que tiraram de mim. Sou uma garota de rua que, mesmo após perder TUDO, vai continuar lutando por você. Vou calçar minhas botas, por um jaqueta e seguir pelas ruas com todo o estilo que não tenho. Não tenho dinheiro, não tenho um apartamento decente, mas não desisto. Porque eu tenho uma causa e alguém a quem voltar. Não me importa o que digam as pessoas, não quero saber, estou travando uma guerra dentro de mim! E se querem saber, é uma guerra linda. Junto a todos aqueles que me causam a expressão mais verdadeira e poderosa de empatia e amor. EU SOU LEAL A TODOS VOCÊS. LEALDADE DE VERDADE. UM TIPO DE AMOR CHAMADO LEALDADE. Lealdade de quem está à beira da morte e da falência, mas não desiste porque não pode deixar alguém sozinho. Não porque não vivem sem você, mas porque você não vive sem eles. São simplesmente grandiosos, maravilhosos e divinos! Não há quem você admire mais! E você os ama tanto, tanto, tanto que os quer proteger de qualquer coisa que possa causar-lhes mal. E seria EGOÍSMO desistir perante eles. Você aguenta o que der e vier, independente da situação, inclusive aquilo que sabe que não pode suportar. Você vai rastejar na areia infernal do deserto e, com as mãos calejadas e as bochechas queimadas, vai seguir em frente. Mesmo que você rasteje pelo resto da sua vida, mesmo que não sinta mais suas pernas, mesmo que não coma nem beba, mesmo que delire. Você está lá por eles e não precisa de suprimentos para te manter – porque o que te sustenta em pé é uma força inacreditável cheia de lealdade, como um suserano e um vassalo. E embora o choro te arrebate o rosto pelo desespero de temer o fracasso, você sabe que vai conseguir. Porque você não se permite sucumbir e NADA vai te fazer mudar de ideia. Você toma novos princípios, você escolhe novas rotas. E quando você estiver numa grande batalha, atacada pelo medo, você vai respirar fundo e sentir o ar forçar caminho pelas suas traqueias, fazendo doer muito. Vai apertar os olhos, talvez fechá-los por um instante, e vai encarar seu inimigo como nunca encarou ninguém antes. E apesar do medo inabalável,apesar de suas pernas tremerem e não terem mais força para manter seu corpo. Você sente os músculos falhares e sucumbirem em espasmos. E você está em pé. E apesar de ver o mundo inteiro ao seu redor, armado com tridentes e tochas, você os encara como nunca encarou ninguém na vida e finalmente profere: podem vir.

Suicídio redentor

eumo

De repente, tudo ficou em silêncio, como se nada mais existisse. Como se o mundo fosse vazio e apenas o ar fosse escutado. Nada, ninguém. Nem brigas, nem sorrisos. Eu senti uma leveza estranha, uma leveza de suicídio. Em parte triste e opressora, quase neutra; em parte libertadora. Senti como se meu corpo fosse minha alma e a única coisa que sentia na carne era como se sangue quente escorresse dos pulsos às mãos, se arraigando no tecido do lençol, penetrando no colchão. Imaginei alguém abrindo a portas e descobrindo a cena. O susto, o medo, o desespero do descobridor, podia ver em seus olhos. Mas eu sorria e achava graça. Um sorriso cansado pela falta de forças, mas encantador. Porque enquanto tentavam me salvar, eu olhava o céu e me sentia livre; eu sabia que já estava salva. Eu sou livre, na maravilha ultrarromântica que é o refúgio da morte. O coração espancando o peito num pulsar fortíssimo e cheio de energia. A felicidade sublime se dando num nó na garganta, sutil. E eu encaro a morte. Alegríssima, contente, engasgando em meu próprio choro. Eu a temo, agradeço e respeito. Sinto-me flutuar na penumbra do quarto.

Me deixa no silêncio morno.
No sono.
Na beleza da vida num quarto escuro
Maravilhoso, encantador.
A cama aquecida
e eu semi-vestida.
A poeira acaricia as costas.
E sou livre.

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