A menina que matava caracóis

Filosofias úteis, inúteis e outras coisas que você pode não precisar.

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Asfixia

fine

“Estou tão cansada que não consigo nem chorar.”
Amy Whinehouse

Não aguento mais, não consigo suportar. Qualquer um pode ver que estou desesperadamente pedindo por ajuda. Em cada tom da íris, em cada análise cotidiana, em cada palavra e gesto. E parece que todos simplesmente ignoram, não veem, mudam de assunto. Eu queria ao menos uma vez na vida ser o centro de todos os dilemas, o mais importante e o mais preocupante. Só uma, apenas para que deixassem brevemente suas vidas de lado e olhassem a minha, prestassem atenção em mim sem julgamentos, com pura compreensão. Mas tudo o que sinto, tudo o que tento para melhorar – nada parece ter valor. Nada que faço parece funcionar. Ninguém enxerga o que está acontecendo comigo! Eu estou tentando e estive durante todos esses anos, as parece que os problemas só vão se acumulando! No final, não sinto que mudei realmente algo em mim, que sou uma pessoa melhor. Sinto-me esquecida, sozinha, cheia de pesos e responsabilidades, carente, angustiada, desesperada, com uma vontade gigantesca de gritar. Causo mal às outras pessoas, às que eu amo. Odeio, me culpo. Por que tudo isso está acontecendo comigo? O que fiz de errado? O que cresci errado? Por que não posso simplesmente levar uma vida normal como as das outras pessoas?

Em cada dizer, um detalhe, um ponto final – é uma tentativa insana de mostrar que não estou bem. Mas acho que ninguém percebe, e isso me frustra tanto. Somente assisto, indiferente e neutra, anestesiada pela dor; vejo meu corpo, meu rosto, se destruir, cair em ruínas, despedaçar. Eu só queria que me perguntassem se estou bem, sem eu precisar falar explicitamente.  Eu só queria sentir – mesmo que superficialmente – que se preocupam com meu estado. Que apenas compreendem e me abracem, repletos de pena e compaixão. Que choram junto a mim. Que não são fortes por um mínimo instante. Que sofram comigo. Que enxergam que estou diferente. Que existe um nó que me asfixia na garganta. Nó de uma corda grossa que sinto descer até o peito, entrando nos pulmões. A sensação é de um fio de cabelo sendo tirado da boca: você sente toda a trajetória tortuosa e aflita, a vontade de que aquilo saia logo do seu corpo. Meu nó nunca sai. Nunca. Só vai aumentando e aumentando…

Prisioneira silenciosa

Silêncio

“Ninguém sabe
Ninguém sabe além de mim
Que às vezes eu choro
Se eu pudesse fingir que estou adormecida
quando minhas lágrimas começam a cair
Espio por trás dessas paredes
Mas acho que ninguém sabe

Ninguém gosta
Ninguém gosta de perder aquela voz interior
A que eu costumava ouvir
antes de minha vida tomar uma escolha
Mas acho que ninguém sabe

Baby, este segredo está a salvo comigo
Não há outro lugar no mundo onde eu poderia estar
E, baby, não sinta como se eu estivesse toda sozinha
Quem estará lá quando o último anjo voar?
E eu perdi meu caminho de volta para casa
Mas acho que ninguém sabe
Ninguém sabe

Ninguém se importa
É ganhar ou perder, não como você joga o jogo
E a estrada para a escuridão tem um jeito
de sempre saber meu nome
Mas acho que ninguém sabe

Baby, este segredo está a salvo comigo
Não há outro lugar no mundo onde eu poderia estar
E, baby, não sinta como se eu estivesse toda sozinha
Quem estará lá quando o último anjo voar?
E eu perdi meu caminho de volta para casa
Mas acho que ninguém sabe
Ninguém sabe

Amanhã estarei lá, meu amigo
Acordarei e começarei tudo de novo
quando todo mundo já tiver ido

Ninguém conhece
Ninguém conhece o ritmo do meu coração
O modo que faço quando estou deitada no escuro
E o mundo está adormecido
Mas acho que ninguém sabe
Ninguém sabe, além de mim”
Nobody knows – P!nk

Eu queria chorar. Chorar de verdade. Gritar de ódio e de tristeza, sentir a dor do luto me destruir de dentro para fora, acabar comigo. Queria chorar tanto que meus pulmões se rasgariam de tão ofegantes. Chorar até não conseguir nem respirar. Chorar como se fosse condenada àquilo, como se não soubesse fazer algo diferente. Não quero tentar me aliviar reprimindo o choro em silêncio durante a noite. Não quero enxugar lágrimas para que ninguém as veja. Não quero forçar uma voz normal para que não me perguntem o que está havendo. Quero chorar como se não houvesse amanhã, quero tirar da gargantas todos esses nós cheios de espinhos, que me arranham desde a laringe, cravando-se teimosos em meu coração. Eu não os controlo. Na verdade, não controlo nada. É como se… Eu estivesse presa não num corpo, não numa vida – mas na alma. Um espírito acorrentado, escondido de todo mundo, num calabouço completamente vazio. Sem visitas, sem soberanos, sem carcereiros. Inteiramente solitário. O silêncio mata. A dor destroça. A beleza pálida do vazio após o choro. O alívio falso que cobre os sentimentos até que não haja mais vida em mim. O silêncio que me toma por completo e me prende. Meu silêncio tão precioso. Meu silêncio que é o meu grito mais forte. Minha alma me arranca de tudo aquilo que anseio. Minha própria alma, cruel e vil, sádica e arrependida. Posso sentir o corte em seu peito ao ver-me desmanchar em tristeza e culpar a ela e culpar a mim por uma realidade tão horrorosa. Parece que respirar é contra as regras, como se eu estivesse cometendo todos os erros possíveis. Como se eu fosse boa para nada. Sou fraca e ridícula e quero guardar isso para mim, porque todos os outros são diferentes. Todas as outras pessoas são mais fortes, são incríveis. E há eu. Daria tudo para ser qualquer garota fútil por aí e não ter essa profundidade de espírito – assim, ao menos, poderia não sentir essas coisas. Eu quero ser feliz. Não plenamente nem para sempre. Apenas feliz. Não quero planos nem fugas, eu só preciso do cotidiano para ao menos fingir que está tudo normal, que nada mudou. Isso me faz sentir mais forte. Eu quero um abraço, um beijo simples, um olhar, qualquer palavra carinhosa. Preciso sempre me fortificar antes de agir, porque eu não sei pensar rápido. Não sei montar estratégias. Quero fazer ao menos uma pessoa feliz, apesar dos meus pesares. Quero sentir e provar a mim que sei, sim, que decisões tomar; que sou uma pessoa boa; que não machuco ninguém; que sei seguir minha força interior. Mas eu não sei. E tudo se perde.

A alma que se afoga

lma

“Eu tenho olhado para um espelho por tanto tempo
que comecei a acreditar que minha alma está no outro lado.

Todos os pequenos pedaços caindo, destruídos.
Pedaços de mim pontiagudos demais para pô-los de volta
pequenos demais para importar,
mas grandes o bastante para me cortar em tantos pedacinhos se eu tentar tocá-la.

E eu sangro, eu sangro.
E eu respiro, eu respiro não mais.

Tomo fôlego e tento respirar do poço de meus espíritos.
Mais uma vez você se recusa a beber, como uma criança teimosa.
Minta para mim e me convença de que sou doente desde sempre
E tudo isso fará sentido quando eu melhorar.
Mas eu sei a diferença entre mim e meu reflexo,
apenas não consigo evitar de ficar me perguntando
qual de nós você ama.

Então eu sangro, eu sangro
e eu respiro, eu respiro
Eu sangro, eu sangro
e eu respiro, eu respiro,
eu respiro, eu respiro não mais.”
Breathe no more – Evanescence

Olho a luz do sol na superfície d’água e moldo os olhos numa despedida desesperada. Não consigo chorar, não consigo gritar. Sinto a pressão da água me envolver, apertar-me contra meu próprio corpo, pressionar meu peito. Não posso nem gritar um adeus. Estar tão perto e estar ao mesmo tempo tão longe, nunca fez tanto sentido. O sol distorcido pelo meio líquido se gaba por um dia maravilhoso, morno e alegre, recheado de crianças sorrindo e gente correndo para lá e para cá – e ninguém sabe que estou aqui. Ninguém. No fundo do mar, enxergo a todos, mas nenhum deles me vê sequer. Sou um segredo submarino. Quiçá alguém esteja me procurando, mas não vai encontrar, porque não olham para  água. O sol não tem nem a decência de me esquentar aqui embaixo. Ele me esnoba, esfregando em minha cara tudo o que ele tem que eu jamais terei. Afogo-me vendo todos ao redor respirarem. Morrer dói. Mais que fisicamente, morrer dói. A vida não é o que você esperava; você sabe que pode consertar porque sente a energia explosiva e devastadora que existe dentro de ti, iluminando seu ser inteiramente! Você sabe que é forte, sente o poder luminoso – e não fez nada. Nenhuma tentativa sequer. Deixou a vida fluir como água, levando-te para onde quer que fosse. Morrer dói. Então, desisto de lutar. Meu corpo relaxa, minha garganta se cala. Não preciso mais chorar, não preciso mais gritar. Com os lábios entre-abertos, olho ao redor com olhos vazios e vejo a poeira na água escura arrepiar meus pelos de frio. Sinto minhas mãos flutuarem livremente sem qualquer força para intervê-las. Entrego o corpo, mas mantenho a alma. Ainda que completamente sem mais essência e peso, guardo-a comigo para morrermos juntas. Para que não digam que não tentei. Não a sinto mais em mim, mas acho que também nem tento muito. Eu a procuro e perco-me na escuridão do eco de meu ser. Meus cabelos dançando como bailarinas na água, sinto-os levitar. Na verdade, seria bom chorar a dor agonizante de sangrar. Destruir-me ao máximo da tristeza verdadeira. Não tenho mais âmago, não tenho mais nada. Sou um corpo oco. Enfim, um tubarão se aproxima. Olho-o na súplica de um golpe de misericórdia. Mate-me, por favor, porque já não aguento mais isso. Mas ele não entende, é um tubarão. E em seus olhos frios, ele expande a mandíbula e me rasga, desgraçando e arrasando a carne que restou em mim. Somente carne. Porque a alma que se afoga tranca o peito e morre – não de verdade, não por inteiro – perdendo-se na desilusão da essência que um dia tomou como sua.

Breve expressão da tristeza

heart

Garotinha, garotinha, por que está chorando?
Dentro de sua alma sem descanso,
seu coração está morrendo.

Quando ela era apenas uma garota
ela tinha expectativas sobre o mundo
Mas elas voaram do seu alcance
E ela fugiu em seu sono
Sonhava sobre o paraíso
toda vez que fechava os olhos

Quando ela era apenas uma garota
ela tinha expectativas sobre o mundo
Mas elas voaram do seu alcance
E balas pegas com seus dentes

A vida continua,
fica tão pesada,
a roda quebra a borboleta
Cada lágrima, uma cachoeira
Na noite,
na noite tempestuosa,
ela fechou os olhos
Na noite,
na noite tempestuosa,
ela voou para longe
E sonhou com o paraíso,
ela sonhou com o paraíso

Ainda deitada abaixo dos céus tempestuosos
Ela disse
“Oh, eu sei que o sol está pronto para nascer”
Isso poderia ser o paraíso

Paradise – Coldplay

Algum dia eu vou voar para bem longe e ninguém vai me encontrar nem perceber nem sentir minha falta. Na verdade, acho que não me importo se me tiverem saudade. Num toque cruel em meu âmago, eu desejo que sofram com minha ausência. Que chorem e se arrependam. E notem o que deixaram de fazer e o quão importante eu era a eles. Que se corroam por dentro remoendo atos terríveis e devastadores. Que seus corações se tornem náufragos de uma tragédia brevemente irreversível. E depois tudo ficará bem, porque não sou de inteiro má. Ninguém vai se lembrar de mim e, embora isso me cause tristeza de choro, estarei bem. Porque estarei comigo e com quem amo incondicionalmente. Estarei bem por respirar serenidade pura. Estarei bem porque não terei outra opção. Porque, se eu mesma não me importar comigo, ninguém se importará.

Heroína de mim

freedom

Não escrevo bem. Escrevo meus olhos, meu cérebro e meu coração. Escrevo para gritar ao mundo o que não posso sussurrar no ouvido de uma úncia pessoa. Escrevo para que saibam quem realmente sou. Escrevo porque esse é o meu canto de vitória, meu extravasar da alma. Pois sou alguém preso. Alguém preso em si mesmo, que se debate pelas paredes gritando “Soltem-se, por favor!”. Grito esvaziando completamente meus pulmões, até que não tenho mais forças para sustentar meu corpo e deixo-o cair no chão, exaurida. Chorando. Eu liberto uma parte de minha alma cada vez que choro. Libertando-a liquefeita até evaporar-se pelo ar e espalhar-se pela Terra. Não morro em partes, eu vivo aos poucos. Não importa o que aconteça, caso eu siga na vida ou na morte, eu só quero sentir minha alma dentro de mim. Na essência que eu sei que é extremamente alegre e inteiramente vitalícia! Na força e no brilho maravilhoso e colorido que é a vida! E quando, no carro lotado, ponho meus fones e permito que a música penetre em mim; quando reprimo minhas lágrimas e quando sinto meus desejos à flor da pele, num turbilhão de ar e sedimentos nas traqueias; quando olho pela janela do auto e as placas da estrada não me são mais objetos cotidianos; quando vejo a mágica em cada pedaço do mundo; eu sou um universo. Um universo inteiro dentro de um carro de quarto portas, rodeado por gente que nem sabe o que está acontecendo. Devo confessar que é algo divertido e levemente cômico de se passar. E incrível também, pois sinto-me especial. Porque sou especial. Sou uma galáxia repleta de constelações lindíssimas e inacreditáveis, que variam entre tons de  rosa, branco e lilás. Os arcos prateados que se formam exibindo orgulhosos e acolhedores sua cor branca brilhante. Sou eu. Sou eu novamente. É a ponta da minha alma. E sinto-a explodindo num grito, num sorriso, num choro devastador de tanta intensidade maravilhosa! Choro de alegria, eu consegui! Eu sei que vou conseguir, porque minha alma clama por isso há tempos! Sou aplaudida, aclamada, erguida pelas mãos do povo! Todos me querem porque sabem quem eu sou. Porque eu tenho aquela força maravilhosa que todos desejamos ter. E eu sei que tenho. E eu sei que vou conseguir. Vou olhar os céus em seu azul-claro sereno e nuvens imponentes, sentindo o calor do sol nas costas e atrás do rosto, retorcer um pouco as sobrancelhas e chorar suave. Não preciso te encontrar obrigatoriamente, você simplesmente saberá que consegui. E quando nos encontrarmos, vamos nos abraçar com toda a força que nunca tivemos e choraremos um no ombro do outro, pela alegria genuína sem explicação. A partir daí, todos os dias serão ensolarados. Eu nunca mais serei essa prisioneira submissa que já me ensinou tanta coisa, mas que agora precisa ir embora. Serei minha e toda minha. E escreverei para gritar ao reprimidos o que precisam. Escreverei para expressar minha gratidão a esse meu espaço que me acolheu por tanto tempo. Escreverei para mostrar a todos que é possível. Escreverei para mostrar quem sou, para que a boa nova se espalhe. Para que o mundo fique cada vez mais lindo.

Suserana

samurai girl

Não vou cair, prometo. Não vou cair porque cair significa te levar junto – e não posso, em hipótese alguma, fazer isso com você. Não posso tirar de você tudo o que você tem, como às vezes sinto que tiraram de mim. Sou uma garota de rua que, mesmo após perder TUDO, vai continuar lutando por você. Vou calçar minhas botas, por um jaqueta e seguir pelas ruas com todo o estilo que não tenho. Não tenho dinheiro, não tenho um apartamento decente, mas não desisto. Porque eu tenho uma causa e alguém a quem voltar. Não me importa o que digam as pessoas, não quero saber, estou travando uma guerra dentro de mim! E se querem saber, é uma guerra linda. Junto a todos aqueles que me causam a expressão mais verdadeira e poderosa de empatia e amor. EU SOU LEAL A TODOS VOCÊS. LEALDADE DE VERDADE. UM TIPO DE AMOR CHAMADO LEALDADE. Lealdade de quem está à beira da morte e da falência, mas não desiste porque não pode deixar alguém sozinho. Não porque não vivem sem você, mas porque você não vive sem eles. São simplesmente grandiosos, maravilhosos e divinos! Não há quem você admire mais! E você os ama tanto, tanto, tanto que os quer proteger de qualquer coisa que possa causar-lhes mal. E seria EGOÍSMO desistir perante eles. Você aguenta o que der e vier, independente da situação, inclusive aquilo que sabe que não pode suportar. Você vai rastejar na areia infernal do deserto e, com as mãos calejadas e as bochechas queimadas, vai seguir em frente. Mesmo que você rasteje pelo resto da sua vida, mesmo que não sinta mais suas pernas, mesmo que não coma nem beba, mesmo que delire. Você está lá por eles e não precisa de suprimentos para te manter – porque o que te sustenta em pé é uma força inacreditável cheia de lealdade, como um suserano e um vassalo. E embora o choro te arrebate o rosto pelo desespero de temer o fracasso, você sabe que vai conseguir. Porque você não se permite sucumbir e NADA vai te fazer mudar de ideia. Você toma novos princípios, você escolhe novas rotas. E quando você estiver numa grande batalha, atacada pelo medo, você vai respirar fundo e sentir o ar forçar caminho pelas suas traqueias, fazendo doer muito. Vai apertar os olhos, talvez fechá-los por um instante, e vai encarar seu inimigo como nunca encarou ninguém antes. E apesar do medo inabalável,apesar de suas pernas tremerem e não terem mais força para manter seu corpo. Você sente os músculos falhares e sucumbirem em espasmos. E você está em pé. E apesar de ver o mundo inteiro ao seu redor, armado com tridentes e tochas, você os encara como nunca encarou ninguém na vida e finalmente profere: podem vir.

Suicídio redentor

eumo

De repente, tudo ficou em silêncio, como se nada mais existisse. Como se o mundo fosse vazio e apenas o ar fosse escutado. Nada, ninguém. Nem brigas, nem sorrisos. Eu senti uma leveza estranha, uma leveza de suicídio. Em parte triste e opressora, quase neutra; em parte libertadora. Senti como se meu corpo fosse minha alma e a única coisa que sentia na carne era como se sangue quente escorresse dos pulsos às mãos, se arraigando no tecido do lençol, penetrando no colchão. Imaginei alguém abrindo a portas e descobrindo a cena. O susto, o medo, o desespero do descobridor, podia ver em seus olhos. Mas eu sorria e achava graça. Um sorriso cansado pela falta de forças, mas encantador. Porque enquanto tentavam me salvar, eu olhava o céu e me sentia livre; eu sabia que já estava salva. Eu sou livre, na maravilha ultrarromântica que é o refúgio da morte. O coração espancando o peito num pulsar fortíssimo e cheio de energia. A felicidade sublime se dando num nó na garganta, sutil. E eu encaro a morte. Alegríssima, contente, engasgando em meu próprio choro. Eu a temo, agradeço e respeito. Sinto-me flutuar na penumbra do quarto.

Me deixa no silêncio morno.
No sono.
Na beleza da vida num quarto escuro
Maravilhoso, encantador.
A cama aquecida
e eu semi-vestida.
A poeira acaricia as costas.
E sou livre.

Não

Mãe bebe

Não é drama, é o sentimento de que toda sua família está desabando e ninguém saber. É enxergar que uma pessoa que você adorava tanto e idolatrava, agora é alguém que te põe numa tortuosa antítese de ódio e amor. É ver sua mãe no limite da irritação e não saber como ajudá-la, porque tudo o que você faz é respondido com descaso e/ou nervosismo. É escutar seu pai reclamar toda vez que está em casa, o dia inteiro. É ouvir sua irmã dizendo coisas horríveis sobre sua mãe e simplesmente fingir que acha graça e que não se envergonha de saber que ela o está dizendo em público, porque você sabe que, de certa forma, ela tem até uma ponta de razão. E cada fragmento de instantes felizes que você consegue é um trunfo. Porém, ao mesmo tempo que um singelo abraço te alegra, também te entristece profundamente. E lá está a antítese novamente. Embora você queira desabafar, chorar, espernear, gritar, quebrar a casa inteira, você se guarda para si – pois aquele momento é tão importantemente alegre que seria desrespeito e desperdício gastá-lo com seu âmago entristecido.  Não importa quantas vezes pergunte, você irá responder: “Sim, estou bem” enquanto vê milhares de cenas desastrosas passarem por sua cabeça. E é apenas quando ele o pergunta que você nota o quão arrebatada está. Você o agarra com todas as forças, com cautela para que ele não veja seus olhos apertadíssimos numa tentativa semi-fracassada de conter algumas lágrimas. Você não quer deixá-lo ir, mas não pode falar – porque precisaria explicar o motivo de querê-lo contigo. Então você apenas o agarra, envolvendo-o na cintura com os braços, com todas as forças que você nunca imaginou ter, numa guerra acirrada cheia de gritos de desespero e espera que adivinhe o que quer, num desejo enganado e cheio de esperança.

E toda vez que estou realmente mal, sento-me debaixo do chuveiro. Talvez pelo sentimento de purificação que a água traz. Primeiro, sinto-a escorrer pelo meu corpo, numa mescla carícia e curso natural. Eu sou apenas um objeto postado ali embaixo, por acaso, e começou a chover. Encolho-me, pondo as pernas na distância limítrofe de proximidade entre elas e meu abdômen. Sinto-as pressionarem meus seios, minha barriga. Os braços as envolvem pelas canela e a cabeça se ajeita, tornando-e num bloco. Apenas respiro sem perceber se muito fundo ou fraquejada, sentindo a água liquefazer meu espírito, até que o liberte. Choro pela destruição, pelas ruínas, sinto-me arrependida por não ter aproveitado meu momento feliz e desejo-o de volta para mim, preocupado, perguntando se estou e tudo o que quero dizer é um “Não”. Não posso falar com minha mãe ou com meu pai, pois sei que escutarei sermões e irritações – enquanto gostaria de ouvir somente um pedido de desculpas e algum tipo de expressão de dó, acompanhados, claro, de um beijo ao topo da cabeça e um abraço.

Eu sinto vento nos braços e me encolho mais diante o frio. Só então me lembro de que fechei a janela e percebo que não é vento, é arrepio. Meu pelo arrepiaram pela temperatura da água, por frio, por desespero. Abro os olhos, já tendo as lágrimas escorrido todas, e vejo o líquido se acumulando em meu colo. Ah, eu lembro que quando era pequena, brincava de Pocahontas no chuveiro. Fico mais um tempo sentada, até que resolvo levantar-me para tomar de fato meu banho e seguir para o quarto. Em determinado momento, perco o equilíbrio e me apoio na parede para não cair. A parede é tão quente. Ela me acolhe, diferente do frio e da água gelada. Ponho-me quase toda contra os azulejos aquecidos pelo calor escaldante da tarde. É como uma criança que dorme acalentada pelo calor do seio da mãe. Então, choro de novo, lamentando ter crescido tanto. Eu quero as regalia da infância, quero em mim a pureza da idade tenra, quero presentear meus pais constantemente, seja com desenhos em folhas sulfites amassadas ou com florzinhas que encontrei no chão. Quero observar atenta um par de folhas comuns, completamente instigada e arrancá-las, para mostrar aos meus pais que sabem tudo. Meus pais que são as melhores pessoas do mundo; as mais fortes, as mais rápidas, as mais inteligentes. Quero a ingenuidade da adoração, quero a genuinidade do verdadeiro amor incondicional. Quero expressar meus amor por eles de toda e qualquer forma, a todo instante, abraçá-los, escrever seus nomes. Minha mãe, maravilhosa, encantadora, cheia de graça, de extremo carinho, linda, incrível. Meu pai, inteligentíssimo, sabedor de todas as coisas, construtor, experiente, cientista, o mais forte, o mais veloz, gorducho, careca, peludo, incrível. Sem conter meu corpo, deixo-me cair agachada, encurvando as costas, sentindo-me como uma rocha debaixo de uma cachoeira. Choro, choro, simplesmente choro. Sei diferenciar as lágrimas da água porque as lágrimas são mornas. Então ergo a cabeça e noto minhas mãos estendidas, oferecendo e exibindo os pulsos, orgulhosas e acolhedoras. Quero encostar neles, senti-los. Sem hesitar, após fitá-los por um breve período de tempo, aconchego meu rosto entre ambos, tocando-os primeiro com o nariz. Ah, eles são quentes. Quentes demais, apesar da água em gelo escorrendo pelo meu corpo. Quentes pelo sangue que ainda corre poderoso e violento em minhas veias – o que me causa certa ponta extremamente fortificada de alegria  revigorante. E lembro da leveza suicida que experimentei um dia desses. Encaro-os por mais alguns instantes, tendo erguido minha face. São realmente lindos, aveludados, perfeito para um tom rubro. Não sei mais se tenho coragem de cortá-los, mas a ideia me passa pela cabeça, bastante insinuada pela estética. Mas, não, não o faria. Não por isso e creio que nem por outras situações, é apenas tristeza legítima e passageira, profunda. Logo vai passar. E sinto-os tão frágeis, como folhas de papel que se destruiriam com qualquer movimento bruco de unhas ou dentes. Tenho o desejo de rasgá-los num gume fino e pequeno, somente para contemplar o vermelho-sanguíneo fascinante dominar meu corpo externo; seria um contraste muito lindo, devo dizer, mas um risco muito grande a correr apenas pela paisagem. Não tenho intenção de suicidar-me. Para compensar, arranho-os breve e leve com os dentes, sentindo a pele fina se acanhar com as veias delicadas e verdes. Seria lindo ser criança novamente.

Gladiadora

Eu me sinto verdadeiramente forte, como se meu grito mudo percorresse o mundo numa frequência tão alta e arrebatadora que eu fosse capaz de recrutar meus próprios guerreiros apenas com o som da minha voz. Mas ninguém sabe da minha força, ninguém sente sua presença como eu a sinto. Ela é maravilhosa, intensa, brilhante, explosiva. Ela me ama, ela me ergue, ela me sustenta. Como um soldado à beira da morte, que se levanta no campo de batalha entre os cadáveres de seus companheiros, perseverante e incisivo, pronto para terminar de ganhar a luta. E o pecado me é tão lindo. O pecado de resurgir num brado de guerra, empunhando a espada brilhando o sangue ao sol. A farda verde suja, desgastada, rota. Mas você está ali em pé, tremendo as pernas de fadiga mas segurando-as com a energia da coragem, com a adrenalina do desejo de vencer pulsando violentamente em suas veias. A respiração ofegante, o rosto sujo de terra, a boca ressecada, o sangue misturado à poeira aderente à sua pele. E no olhar, lembrando de tudo o que você passou, todos a quem amou, lembra da causa pela qual está lutando. É uma promessa, é sua dignidade, é uma pessoa, é um mundo inteiro perfeitamente construído. E você chora, apertando os olhos para não embassar a visão com as lágrimas. Você chora pela emoção, você chora por ainda estar ali, você chora por saber que não vai desistir tão perto do ouro. A pele arrepia, seu coração aperta, tão insistente quanto sua mira das íris. Seu ponto fixo de visão é o líder inimigo, extremamente poderoso, com os braços cruzados pronto para te matar. Ele é mais forte, mas não melhor que você. Ele franze a testa, de orgulho ferido, e pergunta: Por que?. E você, num sorriso cansado e confiante, sentindo o choro impregnado nos cílios, responde: Porque eu tenho uma causa e alguém para quem voltar. Pondo-se em posição de ataque, ele já com o ego muito ofendido, vocifera: Isso não te torna mais poderoso. Um pequeno riso sarcástico escapa da sua boca. Não, não faz. Você é o poder em pessoa, realmente. E eu sou um ninguém, um fraco, um exilado. Eu vim das cinzas, do lixo. E isso me fez guerreiro, porque nada me veio de mão beijada. Eu aprendi a lutar por mim mesmo por questão de necessidade e sem deixar de amar os outros. Eu aprendi que a garra nos sustenta o corpo, fortalece os músculos. A garra, a coragem, o empenho é tudo o que eu sou.Vê o brilho nos meus olhos? Isso é o que eu chamo de causa. E minha própria causa sou eu, porque ninguém vai morrer por meus pecados. Eu sou meu Cristo, meu mártir e meu herói. E quem me acolhe quando meu corpo está trêmulo demais é o mesmo que me faz respirar depois de quase me afogar. E quer saber? É nesse respirar que eu sinto a vida entrando em mim e preenchendo cada um de meus órgãos com seu brilho sutil e encantador. Eu aprendi que a gente precisa cair, errar e morrer para tornar à vida com objetivos cada vez mais fortes. Mas eu não morro mais. Não me permito morrer. Não agora. Não enquanto eu puder sentir a energia pulsante da vida em mim. Mas você está certo, isso não me faz mais poderoso que você: me faz invencível. Um gladiador encarando o leão. Eu não preciso de armadura, não preciso de armas. Eu tenho a mim mesmo. E você, tem a quem?

Loba devoradora de homens

Eu me desonrei, me desgracei. Sou um monstro vil, loba devoradora de homens. Eu, que sempre falei tanto de impor e ceder, só soube exigir. Eu, que desrespeitei-o por tantas vezes, como se fosse tão simples como andar para frente – e ele continuou ali. Ele sempre me apoiou, fez das tripas, coração para me ver sorrir. Como eu pude ser tão má? No final das contas, não sou menos cruel que muito assassino por aí. Acho que é por isso a razão de querer cuidar tanto dele, de querer vê-lo feliz. Porque sei que errei muito e errei feio. E mesmo eu o tendo feito, ele me aceitou de volta sem sequer hesitar – porque eu o fazia feliz. E eu tive a paxorra de jogar tudo no lixo, desprezar tudo o que ele proporcionou. Só o carinho, só o afeto… Só a supervalorização que ele me deu já é motivo o bastante para que meus atos sejam horríveis! Talvez eu seja uma pessoa horrível, insensível… Maldita, não valho a comida que como.

Talvez eu tivesse medo de tanta felicidade. Talvez eu não quisesse aceitar que ele era o príncipe perfeito. Mas, se há pouco tempo concluí que amor é algo muito mais forte que respeitar, cuidar e admirar… Se concluí que amor é fazer sacrifícios sem se importar quando te rasgam a carne, pois sua causa é tão infinitamente maior que qualquer sofrimento vale a pena… Se entendi que amor é uma sensação que explode e arde no peito, por que rezo todas as noites para que ele fique melhor? Por que me desespero nas tentativas de querer cuidar de você? Por que peço a Deus para que, se for preciso, que ele esqueça de mim para se recuperar? Por que, se pedir isso me dói tanto na alma?

Não quero criar esperanças, mas também não as quero destruir. Só preciso de um tempo para mim, para organizar a cabeça e relaxar. É tempo de purificação, meditação. Mas a culpa e a crueldade me consomem por dentro, alternando entre úlceras e cólera. Meu corpo se contorce, fazendo a areia impregnar no sal liquefeito em meu rosto. Um grito tremendo a rouquidão ecoa pelos grãos no solo e fecho o punho, pronta para me levantar em busca da catarse. Então dou meu último suspiro e, por ora, morro.

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