A menina que matava caracóis

Filosofias úteis, inúteis e outras coisas que você pode não precisar.

Arquivo para a categoria “Confabulando”

Void

Void

“Então, enquanto rolo em meus lençois,
e, mais uma vez, não consigo dormir.
Saio pela porta e subo a rua,
Olhos para as estrelas
abaixo dos meus pés.
Lembro dos direitos que fiz errado.
Então aqui vou eu.
Olá, olá.

Não há lugar que eu não possa ir.
Minha mente está turva mas
o coração está pesado,
parece?
Perco a trilha que me perde,
então aqui vou eu.

Então mandei alguns homens para lutar
e um voltou no final da noite,
disse que viu meu inimigo,
disse que se parecia exatamente como eu.
Então saí para me cortar.
E aqui vou eu.

Não estou chamando por uma segunda chance,
estou gritando no topo de minha voz.
Dê-me razão, mas não me dê motivo,
porque só cometerei o mesmo erro de novo.

E talvez um dia, nós nos encontremos,
e talvez conversar, não só falar.
Não compre promessas,
porque não há promessas que eu mantenho.
E meu reflexo me causa problemas,
então aqui vou eu.

Não estou chamando por uma segunda chance,
estou gritando no topo de minha voz.
Dê-me razão, mas não me dê motivo,
porque só cometerei o mesmo erro de novo.

Então, enquanto rolo em meus lençois,
e, mais uma vez, não consigo dormir.
Saio pela porta e subo a rua.
Olho as estrelas,
olhos as estrelas por ora
e me pergunto onde foi que errei.”
Same mistake – James Blunt

Estou me destruindo. Consigo inclusive escutar o piso muitíssimo espesso, de azulejos desenhados em vermelho e violeta, quebrando-se, ruindo dentro de mim. Às vezes, é de repente que ele se afunda em V e lança os minúsculos cacos quase em pó em meus olhos. Mas por outras tento contar quantas vezes consecutivas ele estronde enquanto se rompe se parar. Não consigo mais dormir à noite. Não me deixo. Só adormeço quando meu eu rende-se ao cansaço e a tristeza, à solidão. Entretanto, agora é diferente, porque sei o motivo de estar sozinha. Eu me obriguei a isso, obriguei aos outros fazerem isso c0migo. Ultimamente tenho sentido tantas coisas que não sentia mais. Acho. Provavelmente sentia, mas negava, fingia que não entendia, não queria acreditar. Tanta raiva, tanto egoísmo, tanta culpa. Penso que, no final, era para ser assim mesmo. O sono me toma pela fadiga noturna e por abrigar-se no vazio de meu corpo. Os vícios sumiram um pouco… Porque estou me apagando… Estou sumindo… Sinto que estou morrendo. Mas todos nós estamos, certo? É desesperador não saber o que fazer. Não quero fazer tudo isso comigo mesma… Eu pensava que meu maior problema era ter muita consciência sobre quase tudo. Mas acho que é o contrário que está me fazendo tanto mal. E tenho certeza de que há gente contente com isso. Ao mesmo tempo que isso me acende uma raiva ardente, quase esqueço-me da pena que também se cobre em minha penumbra… Eles não entendem a sinceridade de tudo isso.

Anúncios

Vômito

Por que ninguém me ajuda? Por que ninguém olha para mim? Faço a minha parte, mas não adianta vomitar palavras presas no âmago, se ninguém as quer ouvir. Por que não falam sobre isso? Eu sou realmente sozinha?

Cólera (A moléstia da Escuridão)

murderer

Eu quero ser má. Quero ser uma pessoa ruim, terrível. Cultivar desejos doentios pelos outros. Pensar que o mal é tão simples… Que está praticamente tudo ao meu alcance. Meu corpo em movimentos viciantes os quais não posso mais controlar; o pescoço se entorta, as narinas se contorcem, as pálpebras aperta, a coluna vibra. E o choro escondido na linha baixa do olho é violentamente impedido. Sou escrava do vício, da adrenalina da tristeza. Eu senti o metal no odor do sangue maculando minha jaqueta, minha pele. O rubro coagulando embaixo de minhas unhas, e senti como se tivesse matado alguém.  Esfreguei-o sobre minhas mãos, rosando as linhas das digitais. Os nós dos músculos retesados doem tanto. Cada arrepio de frio me machuca. Eu queria lamber o sangue. Perscrutar cada esconderijo do abrigo das mãos com minha língua, encontrar os pontos de plasma acumulado. Como se eu degustasse o gume da faca. Certamente, se fosse assassina, seria serial. E carnívora. Humanamente carnívora. Sentir os nervos nadando nas papilas, cada fio de carne fria num deslize aflito pela garganta. Por que não sinto mais a agonia? A angústia que me consumia viva, que apodrecia meus músculos, forçando-os a encolher ao ponto da dor? Eu quero sangue cobrindo cada centímetro das roupas. Gosto de como ele se mistura ao jeans, criando um vermelho putrefato e lúgubre. Doentio. Como uma assassina em série, carnívora. Gerando medo verdadeiro. Eu caminharia na rua apenas para criar pavor. Os olhares de estranhamento, em pânico, em completa paralisia. E seria certamente hilário, porque deviam saber que não tenho a intenção de matar todos. Não agora. Um assassino serial tem seu alvo. Eu escolheria um, só um de cada vez. Provavelmente alguma menina loira, de cabelos compridos e meio ondulados, bem claros e brilhantes; alguma bem jovem, a partir dos quinze anos, que beirasse no máximo os vinte ou vinte e três, acho. Ela seria bem vestida, com uma saia e uma blusa delicada e colorida, diferente e moderna. Não sei que cor são os olhos, estão abaixados, lendo qualquer coisa – provavelmente mensagens – no celular. Distraída, levada pelo acaso, pelo simples fato de não ter pesos na vida, por não ter – ou melhor, por não se importar – com as preocupações. A vida dela é leve, recheada de gente, indivíduos que não chegam aos pés dela – não porque ela os esnoba, pelo contrário, ela os trata bem e os faz sentir da melhor forma que uma pessoa o poderia fazer – mas porque ela é completamente intocável, inalmejável, inalcançável. Uma deusa por aclamação. Enquanto ela vive numa na luz, sou rodeada por uma aura negra de tristeza e peso, a escuridão genuína da qual ninguém nunca provou. Minhas costas arqueadas pela fadiga de carregá-la. As mãos trêmulas por insanidade, os olhos movendo-se sem parar por terem se embebido no vício – esse termo tão saboroso de proferir, emanante de um pus de veneno de cobra. Carrego Cleópatra no peito, no corpo. As unhas frementes arranhando a mim mesma, como seres de vida própria. Não me pertenço mais. Meu corpo agora é dono de mim, dono de minhas vontades, de minhas sensações e sentimentos. E num papel de bom corpo – na essência mais real do que já foi estudado quanto ao pequeno léxico “bom” – ele exala as tentações de maneira física. E eu sigo. Como um filhote de cachorro que precisa de um dono, sou eu a viciada que segue o corpo atrás de carne, o que, na verdade, torna-se bastante irônico. Ele precisa de fibra, sangue, músculo para viver. Precisa rasgá-los no dente para que o contato seja o mais próximo e o resultado o mais certo possível. Eu quero sentir as veias embrenhando-se entre a gengiva. Ela vai se assustar tão meiga… Vai erguer os olhos da tela brilhante e, de repente, se foi. Avistou-me quando já era tarde demais. Eu não sou nada. Sou mais baixa, de cabelos mais curtos, mais castanhos, menos magra. Não venho de família consagrada, não tenho dinheiro, inteligência. Mas tenho o que ninguém mais tem: escuridão. Sempre sozinha. Eu carrego a decadência do mundo nas costas. Passa um tempo e você se acostuma ao peso, mas ele continua ali. E tenho o breu, a pior das penumbras – feche os olhos e saboreie cada sílaba na saliva: tenho a escuridão – porque pessoas como meus alvos tiraram-me o que me era mais importante, arrancaram de meu alcance tudo o que eu mais precisava e que agora não posso nem almejar: a felicidade verdadeira, pura. Elegerei uma ordem para eliminar os que odeio mais primeiro. Será uma chacina, o mundo todo vai pagar; porque, oras, o resto do mundo também ajudou.

Insano

A alegria da vida agora me parece tão falsa. Não porque estou infeliz, mas porque… Não somos. Criamos uma ilusão de felicidade e acreditamos nela como um deus. Mas é mentira. É mentira. Nós não somos nem nunca seremos realmente felizes. Somos escravos de regras que fingem conhecer a verdadeira felicidade, sendo que nem elas são felizes. Somos escravos do tempo, do trabalho, de esforços que nos dizem ser necessários para uma vida de dedicação e dignidade, quando a única coisa que esses esforços fazem é destruí-las! Talvez sejamos todos loucos. Cada qual em seu espaço próprio, sem deixar que o encostem totalmente. E a inocência infantil parece-me tão falsa. Ela não existe. Nada do que acreditamos existe, porque negamos nossa própria existência. Negamos que sofremos, negamos que somos infelizes – sempre tentando acreditar que tudo pode mudar, mas não vai, apenas pelo fato de que não podemos tomar qualquer atitude sem antes aceitar aquilo que nos rodeia. Sinto-me tão inútil pensando que fui criada e que os pais educam seus filhos esperando-lhes o melhor, mas todos crescem e se enchem de malícia e de perigos que não existiam antes! Todos crescem e tem problemas que não tínhamos! Todos crescem e tornam-se insanos, malucos! E nos prendemos a isso porque esse ciclo de infelicidade, de insatisfação nos prende como um vício, porque é ele que nos faz acreditar que ele mesmo não existe! E tudo vai para o lixo. Porque nada serve enquanto não crescermos… Em qualquer sentido que eu queira ter dito.

Amiga Bárbara

Bárbara, eu gostaria de me desculpar por todas as vezes que dei a entender que não desejava sua presença, por todas as vezes que pareci dificultar as coisas. E devo confessar que não foram apenas as aparências: era verdade. Mas não se choque, o erro não estava em você, estava em mim. Você sabe melhor que qualquer um que nunca fui alguém de muitas companhias e acho que, com o passar do tempo, prendi-me a isso. Entendi que afasto as pessoas e que, para que aquelas que me gostam continuem me gostando, melhor é mantê-las afastadas, pois assim não se aborrecem ou chateiam perto de mim. Eu SINTO falta de uma amiga como você. Eu SINTO falta de VOCÊ. Porque você é aquela que eu sei que pode até se espantar com certas decisões ou atitudes minhas, mas que NUNCA deixará de estar ao meu lado, porque você me ama assim como eu amo você. Não tenho palavras para expressar o quanto TODA a convivência com você me faz falta. Eu me prendi numa cúpula de isolamento, sem amigos genuínos para dizer tudo e qualquer coisa que desejo e nos divertirmos e chorarmos juntos. Transformei minha própria vida num inferno pulsante e não via como escapar; achava que era muito difícil. Mas ontem, hoje, percebi que tudo o que preciso é ter alguém que me entenda. Você não me entende completamente, é verdade – assim como não te compreendo por completo também. Mas ambas temos força de vontade para tentá-lo e ajudarmo-nos como pudermos, porque eu nunca tive uma amiga como VOCÊ. Obrigada, MAIS que obrigadíssima por TUDO. Você vai viajar comigo essas férias. E isso é uma ordem. 😉

O rio de água tenra

Large

“O que eu gosto no rio mais
é que ele nunca está igual,
a água sempre muda e vai correndo.
Mas não podemos viver assim
e esse é o nosso mal,
e o pior é que acabamos não sabendo

Lá na curva o que é que vem?
Sempre lá na curva o que é que vem?
Quero saber
lá na curva o que é que vem,
eu só vou ver,
aves a voar,
quero entender!
O meu sonho não me diz
lá na curva o que é que vem pra mim?
Que vem pra mim?

Eu não me canso em procurar,
um dia sei que vou ouvir
algum tambor distante que me chame.
E o estável lar que eu terei
irá me proteger,
quero segurança um homem que me ame!

Lá na curva o que é que vem?
Sempre lá na curva o que é que vem?
Quero saber
lá na curva o que é que vem,
eu só vou ver
que cheguei ao mar,
quero entender!
Meu destino está com quem?
Lá na curva o que é que vem?
Lá  na curva o que é que vem?

Que caminho vou seguir?
Qual a melhor solução?
Vou casar com Kocoum
ou devo então casar com quem?

Ou só sentir que meu sonho vive?
E depois da curva..”
Lá na curva – Pocahontas

Eu ouço a água tenra correr em correntes desfeitas, molhando a terra e as margens. A canção inebriante e hipnotizante da natureza líquida me toma por inteiro, por dentro, fazendo-me flutuar. O fogo é bonito e imponente, amedrontador, dominante; mas não supera a serenidade e dedicação da água em sua tarefa de correr do ponto alto ao baixo, explodindo algumas pequenas bolhas e nos embalando num frio aconchegante, quase morno. Eu gosto da água jovem, daquela água tenra como a maciez e moleza de uma pata de filhote de lobo. Posso ver o rio sorrir calmo para mim ao ver-me apreciá-lo. Embora a corrente seja fria, sinto-a muito quente, sem saber a razão. As gotículas embaçam minha visão, as pupilas, fazendo de meus olhos telas para uma nuvem de vapor. Deixo a correnteza me levar, sentindo o líquido incolor enfeitar-me com pulseiras e gargantilhas, e colares de ouro d’água. Ela me corre pelos braços, cobrindo-me o corpo. O nó da garganta não existe mais, ele se derrete no calor. E sou levada sem saber para onde vou. O que é a vida sem destino? Paz. Não sou sozinha. Um espaço limitado de margens gramadas e encharcado por uma veia aquosa, até estreita, me leva. De braços abertos, como Cristo na cruz, imagino que descerei por uma cachoeira mortal. Paro na margem, voltando à realidade e abro os olhos. Melhor desligar o chuveiro.

Pecadora maculada

divination

“Agarre sua arma,
hora de ir para o Inferno
Não sou heroi algum,
culpado como condenado

Procurar e destruir

Encontrei minha fé
vivendo no pecado
Não sou Jesus,
nem você é, meu amigo

Sou uma vadia,
o nascimento de sonhos quebrados
A resposta simples
nunca é o que parece

Em um milhão de pedacinhos
nós nos quebramos
Um milhão de pedacinhos
roubei de você

Procurar e destruir

Vendi minha alma
ao Céu e ao Inferno
Doentia como meus segredos,
mas nunca os contarei

Sou culpada,
peso de meus sonhos
Em uma maldição de fé
e numa benção acredito

Procurar e destruir

Deixe-me ir
Deixe-me ir
Deixe-me ir
Deixe-me ir”
Search and destroy – 30 Seconds to Mars

Como se eu lutasse contra uma morte inevitável. Enquanto meu coração atrofia, caio ajoelhada, sufocando no desespero de uma tortura sádica. Que fraqueza. Eu devia arcar com as consequências, não lamentar o fardo. É o preço por meter-me numa guerra tão vergonhosa. Tem razão em ficarem furiosos: se todos forçam-se a uma convivência triste e decadente, rejena de máscaras, que bons motivos tenho eu para fugir disto? Não cabe a mim decidir ou não a lógica de pagar por algo que não foi feito. Sou uma herege, vadia, prostitua. A escória das almas que se traem e correm, que assassinam a si mesmas. Nada é tão rijo como meu coração de pedra, de músculos plastificados e estrias salientes. Que ousadia essa minha de mostrar-me crua numa essência aérea e carnosa de esperança. Todos arcam e sofrem, que direito tenho eu de revelar-me deste modo? Porque sempre fui diferente. Porque nunca aprendi – por mais que surrassem meu rosto na terra batida até esfolar-me com a poeira – que sou insignificante; que só importa o que está acima de mim. Sou forçada a obrigar-me a prender-me apenas às indiretas sofridas na esperança não-recíproca, incapaz de pedir ajuda. As pessoas boas não se se não enxergam minha sina – mas as que enxergam a ignoram num sarcasmo doloroso e doentio, merecido. Vejo-me, então, sempre perante duas opções: sufocar no veneno empoeirado da garganta aos pulmões, sentindo minhas pleuras secarem e ficarem ressequidas e quebradiças; ou arder nas chamas gritantes do Inferno, atada a um mastro amadeirado e fervente; o feno escaldante queimando cada nervo sensível em meus pés. Bruxa maldita, morra em segredo e celebrarão quando notarem. Culpa sua ficar em evidência. Verme, parasita. Conseguiu o que nenhum de nós alcançou. Vagabundo, pecadora maculada. Seu coração será troféu quando terminarmos de te minar aos poucos, víbora traidora. Renegada, rejeitada.

Sinto-me cansada, acabada, esgotada, exaurida de todas as forças. Ofegante, corro fugindo da fogaréu às minhas costas, ainda sendo possível sentir as cordas em brasa se desfazerem em meus pulsos incendiados. A pele derrete ardidamente conforme a brisa forçada me arrebata. Rufo, lutando, espancando todas as cordas vocais na violência do apertar dos olhos, sufocando. Asfixiando. Nem o choro atravessa o ar negro em minha garganta. Sentindo as lágrimas reprimidas nas maçãs do rosto, em espamos internamente fortes e sem efeito real, caio, atinjo a terra. A rigidez da estrada me açoitando a face. E descubro, então, que o pó do veneno sempre foi fuligem tóxica.

Vitória

gárgula

“Eu vim para vencer, lutar, conquistar, prosperar,
Eu vim para vencer, sobreviver, prosperar, erguer-me,
Para voar

Eu queria que hoje chovesse o dia todo
Talvez isso meio que fizesse a dor ir embora
Tentando te perdoar por me abandonar
Mas ainda acho que sou um anjo distante
Um anjo distante, estranho de certa forma

Deve ser por isso que persigo estranhos
Eles pegam suas armas e miram em mim
Mas eu me aproximo quando miram em mim

Eu, eu contra eles
Eu contra inimigos, eu contra amigos
De alguma forma, ambos parecem tornar-se um
Um mar cheio de tubarões, todos eles farejam sangue

Eles começam a chegar e eu começo a subir,
Deve ser surpreendente, sou apenas conjecturas,
Vencer, prosperar, planar, mais alto, mais alto
Mais fogo

Todos tentam me encaixar
Sufocante sempre que me trancam
Pintam as próprias imagens e depois tentam me enquadrar

Mas ficarei onde começa o topo
Pois não sou uma palavra, não sou um verso,
Não sou uma garota que pode ser definida

Não sou um voo, sou uma levitação
Represento uma geração inteira,
Ouço as críticas em alto e bom som
É assim que sei que a hora está perto

Então tornamo-nos vivos numa época de medo
E não tenho tempo a perder
Chorando demais dia após dia
Um fardo tão pesado posto sobre mim
Mas quando você trabalha duro seus ‘nãos’ viram ‘sims’

Prepare-se para isso,
Eu vim para vencer

Eu vim para vencer, lutar, conquistar, prosperar
Eu vim para vencer, sobreviver, prosperar, erguer-me
Para voar
Para voar”
Fly – Nicki Minaj feat. Rihanna

Meu corpo é oco para cuidar da incrível fonte de luz que se abriga em meu ser. É uma esfera média, amarelinha como uma chama de vela, que irradia em ondas círculos de luz. Ao mesmo tempo em que me esvazia, me preenche de uma substância abstrata, de um ar diferente, exclusivo. Uma nuvem que cheira à erva cidreira, perfumando-me interna, tornando-me um ponto de esperança. Ela é um complemento de mim, renovação da minha fé em lutar sem parar – porque mesmo quando cessamos por um intervalo, nos preparamos para a próxima leva. Sentados num saco de estopa, deixados no deserto. Esperam que morramos por cobras, mas vão se decepcionar. Porque vamos sobreviver. Não de um modo vitorioso por esperança e – estranhamente – por também desespero; será uma vitória gloriosa, iluminada, extremamente intensa. Vamos erguer nossas espadas sujas de areia, o sol nos queimando até os ossos.  Nem seu corpo aguenta fisicamente – mas você está lá para vencer. Para mostrar a todos que nenhuma das tentativas de descrédito por medo e crueldade te derrubou. Você olha a luz ardente no céu, deixando lágrimas escorrerem muito rápidas pela luz que te desidrata o cristalino e pela glória dourada que conquistou. Heroica. Hercúlea. Você grita, ri, cai em prantos numa euforia maravilhosa de não saber o que fazer! A energia é tanta, a felicidade pura e genuína é tão grande que as únicas palavras nas quais você pensa são Eu consegui. Depois de tudo, depois de chorar tanto, de me quebrar, de gritar de dor e desespero. Depois de tantos esforços, depois de tanto desejar desaparecer com a poeira no ar, de não existir. Depois de tudo – TUDO – eu consegui. Eu provei a todos, e ainda melhor, a mim mesma que posso, que estou aqui, que sou incrível e heroína de mim mesma. Você soluça, descontrola a respiração, grita pelo amor, pela alegria de saber disso tudo. De saber que você não é um peso insignificante. Que tudo é tão lindo e perfeito. Por perceber o quanto você é forte, o tamanho da sua fé. O alívio e os sorrisos mais verdadeiros do mundo saem na respiração, doendo demais ao raspar nos brônquios, na garganta – porque você não quer deixá-los sair NUNCA. Eles são seus, você é de si mesmo, o mundo é seu se desejar – não por pertencer, mas por você se pertencer. Os olhos já cansados baixam para enxergar suas mãos entre o pó no chão. Já ajoelhado, sentindo seu corpo inteiro trêmulo, você prende o ar dentro e torna a chorar, mais e mais. A felicidade extrema é tamanha que não é possível pensar na melhor maneira de extravasá-la. Você simplesmente a sente e chora como uma criança, verdadeiramente, sem preocupações, sem receios. Chora de verdade, sentindo cada lágrima singular abrir caminho entre os poros. Como uma criança… Um corpinho quente e frágil, que não entende direito o que sente. E é tão bom. Tão libertador, tão glorioso quebrar as próprias correntes.

Príncipe das Cruzadas

Altair3(Devidos créditos ao Lucas Elder pela dica de imagem)
(Sim, o texto é sobre o Altair, do AC. Mas o eu-lírico não sou eu)

Começa pelo olhar a sensação que me causa: uma rajada fina e retilínea que me corta abruptamente, num tiro pela íris, como um projétil que penetra num lago escuro de água densa. A imagem dele – um homem robusto, forte, bruto – que me encara num ângulo incisivo e sensual. Sua respiração quente complementa o mormaço desértico que lhe seca a pele. Ele rufa discreto e marcante em toda a violência de seu corpo, destroçando-me no prazer da dor de senti-lo em mim sem nem mesmo me tocar. É de propósito, porque sou submissa a ele; sou sua apenas se ele permitir e, ao mesmo tempo, sei que também deseja ser meu. Ele. Até a palavra me soa quente na boca. A saliva fervente, meu corpo quer sua língua na minha. Anseio desesperadamente pertencer, sucumbir aos seus lábios ásperos que acariciam minha pele, esfolando-a, escapando-me gemidos mesclados de orgasmo e laceração. Posso sentir meus músculos retesarem enquanto a respiração fremente vibra os lábios, soprando calor em seu ombro. Ele gosta, goza na vulnerabilidade de meu ser perante sua presença. O controle, o domínio sobre a fragilidade. E, de repente, estamos distantes do mundo numa sala infinita de paredes de escuridão; a poeira morna nos envolvendo, acolhendo-nos no breu como se fosse nossa única proteção – a singular garantia de que estamos juntos sem perigos. A penumbra nos reconhece como um só num abraço de toque incompleto, áspero, grosseiro, envolvente e trêmulo, este por minha parte – pois ele é firme, meu príncipe das Cruzadas, oculto, poderoso, titânico. Sua magnitude para comigo é macia e protetora, numa quietude bruta habitual e nervosa. Sua rispidez, seus mistérios, me instigam, atraem, excitam.

Só então percebo que ele está à espera de minha despedida. Não podemos nos tocar, sequer aproximarmos mais que alguns metros; não devemos nos desejar colados um ao outro, num cotidiano comum e alegre, perfeito. Somos o segredo da humanidade, um ponto cego tortuoso e cruel, atroz em cada chibatada – pois ele é um príncipe das sombras sob o sol, sem nome, sem rosto, filho de ninguém. E eu, a plebeia, predestinada, comprometida, corrompida pelo proíbio da paixão. Também escondida, sou mais que uma mulher comum, herege às regras padrões. Nenhum de nós pode ou deve ser descoberto. Nenhum de nós deveria lembrar que se conhece. Ele me apressa, não querendo ir sem que eu note, imersa na perdição. Olho-o preocupada; rezo interna, apreensiva por sua volta incerta. Então, numa conexão íntima e única, intensissíssima – mais forte até que sua imponência – ele se vai, deixando em prantos nossas almas, os olhares. Num salto rodeado por uma liberdade indesejada, ele some, se esvai. E os segundos que me estrangularam o coração agora o parte em pedaços sangrentos, numa corrente de espinhos.

Coração de chumbo

libertação

“Posso quase vê-lo
Aquele sonho que estou sonhando
Mas há uma voz em minha cabeça dizendo
‘Você nunca o alcançará’

Cada passo que tomo,
Cada movimento que faço
Parece perdido em nenhuma direção
Minha fé está chacoalhada
Mas eu preciso ser forte
Preciso manter minha cabeça erguida alta

Sempre haverá outra montanha,
Sempre irei querer movê-la
Sempre haverá uma batalha difícil
Às vezes precisarei perder
Não é sobre quão rápido chegarei lá
Não é sobre o que há do outro lado
É a escalada

Os esforços que estou enfrentando
As chances que estou tomando
Às vezes podem me derrubar
Mas não, não vou quebrar

Posso não saber,
Mas esses são os momentos que lembrarei mais
E eu, eu preciso ser forte
Apenas continuar insistindo porque

Sempre haverá outra montanha,
Sempre irei querer movê-la
Sempre haverá uma batalha difícil
Às vezes precisarei perder
Não é sobre quão rápido chegarei lá
Não é sobre o que há do outro lado
É a escalada

Continue em movimento
Continue escalando
Mantenha a fé
Querido
Mantenha a fé
Mantenha a sua fé”
The climb, Mily Cyrus

As lágrimas que derretem por mim não são pesarosas nem tristes. São lágrimas fortíssimas e poderosas que expulsam de mim todos os resquícios do fardo que carregava. Nada mais salgado sobre dentro. Meu coração de chumbo, sinto seu peso afundar o seio, bombear metal para as veias, encher meu sangue de garra e energia. Agora sei que sou forte, forte de verdade – porque sinto isso genuinamente, na melhor expressão do sentimento. Sinto seu peso físico, a leveza emocional que me faz pairar no ar. Tudo o que derramei hoje, toda a maquiagem escorrida na fronha, tudo valeu a pena, pois foi esse meu golpe de misericórdia. Consigo até sentir a lâmina de minha espada penetrando e rasgando cada camada de carne de meu adversário, de todos os muros e obstáculos, de toda a energia que me quis mal. Livre, enfim!, grito na rouquidão do máximo da voz, seguindo uma risada de felicidade estridente! Não existem mais pesos em mim. Não existem mais pequenas pedrinhas que mantém meus pés no mesmo lugar. Sinto-me leve e sou livre! Não por uma libertação de desespero e desilusão, mas por uma catarse purificadora maravilhosa! Todas as impurezas, todos os pesos de ferro saíram de meu sangue. É vero que ainda vejo suas marcas sombreadas em cinza, mas não é algo a me fazer mal – pois cicatrizes só mostram quão longe você chegou. E ainda quero ter cicatrizes. Elas doem, muito. Mas só na hora de surgirem. Anseio olhar-me no espelho,ver meu corpo repleto de marcas e pensar: “Meu deus… Eu consegui. Eu passei por tudo isso e ainda estou aqui.”. Eu não desisti porque sou uma guerreira. Não uma heroína especial, sou exatamente como vocês. Apertem bem os olhos se quiserem e sintam. Sintam o brilho dourado que há bem no seio, na curva do peito. Ele é pesado porque é forte – e não porque é feito de culpas e erros. Erros só fingem ser pesados – e são mentirosos – porque são tão leves e frágeis que precisam de máscaras para encobrir sua vulnerabilidade. Mas se você os desafiar e usar sua própria força contra eles, correrão aterrorizados por seu poder. Você é forte. Você é brilhante e incrível. Todos temos medos inderrotáveis, erros, arrependimentos. E sabe o que são eles? São caminhos que a crueldade invejosa do mundo encontrou para reprimir seu verdadeiro tamanho – porque é ela que tem medo. Teme você descobrir do que realmente é capaz. Todos vocês são lindos, incríveis, maravilhosos e encantadores. Cada qual com seus saberes a reter e a passar adiante. Cada qual com suas habilidades e peculiaridades belíssimas que lhe destacam em meio a qualquer multidão. Somos unidos em sermos todos únicos. Todos humanos, pessoas. A depressão, a tristeza genuína, está em todos nós – e parece, mas não é, arrebatadora. Ela é simples e, se você olhar lá dentro, não sabe exatamente onde precisa chegar para derrubá-la – mas tenho certeza de que você está tentando. Não importa se pensa que está conseguindo ou não – tentar já muda tudo. E se tentar, passará por dores maiores ainda, advirto. É verdade. E o fará por estar enfrentando a fúria da maldade tortuosa do mundo; mas ela está desesperada, temendo em completo pânico por ver que você está no caminho certo para descobrir a verdadeira luz que tem em si! Não importa quem você é, de onde veio, no que acredita. Lembre-se SEMPRE que você é uma pessoa como qualquer outra: nem mais nem menos. E que se, algum dia, seus pesos parecerem maiores do que sempre foram ou do que realmente são é porque suas tentativas estão dando certo.

Navegação de Posts

%d blogueiros gostam disto: