A menina que matava caracóis

Filosofias úteis, inúteis e outras coisas que você pode não precisar.

Arquivo para o mês “dezembro, 2013”

Desistência

 

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Sinceramente, eu não sei o que houve. O toque fantasioso de deleite do violino me conduz por um fio de dor muitíssimo implícito, mas dilacerante. Ninguém acredita no que eu falo. Ninguém quer entender o que eu digo. Sinto-me tão extremamente culpada por dizer que sou sozinha – quando há uma família inteira querendo meu bem e gente tão preciosa zelando tanto por mim. Mais uma vez, digo que meu problema e ser consciente demais. É uma tristeza estreita e de um negro brilhante que percorre a música e penetra em mim, causando uma agonia torturante por não se deixar identificar. Sinto-me tão extremamente culpada, mas as pessoas não querem raciocinar o que eu digo. A pronta reação de todos é agir como se o problema fosse algo tão pequeno e de tão pronta solução que negam quaisquer outros adjetivos que eu cuspir.

Sinceramente, eu desisti. Desisti de falar com qualquer um. Com meus pais, com o Matheus – minha irmã, nunca tentei porque não vale a pena, afinal, “eu estou assim porque nunca sei fazer nada”. Não posso ser mas verdadeira quando falo que adoroamo a ajuda que todos eles querem me dar – mas não suporto mais. Sabe o que é NADA adiantar? Eu fico bem por aquela noite e pronto, acabou. Tentei falar com psicólogos (duas, para ser mais exata), mas posso passar a semana inteira ensaiando e sentindo TUDO o que quero dizer e certamente sairei de lá sem ter contado um terço do que planejava. Eu não consigo mais falar com as pessoas. Eu não consigo mais organizar meus pensamentos. São crises de choro espontâneas, oriundas de fatos tão cotidianos e ridículos os quais me envergonham dizer por tamanha insignificância; são ataques de ansiedade antes de dormir, sentindo a solidão e o medo unirem-se e me inflarem de fora para dentro, levitando-me numa corrente de terror tortuoso. Não desisti da vida, não. Na verdade, eu nunca tive coragem para o suicídio  e acho que nem tanta vontade assim. Mas eu me mato, sim, aos poucos. Arranjo-me ainda mais problemas (desnecessários, ainda por cima). Privo-me do sono, corroo-me na fome. Liberto a perdição do olhar em um ponto randômico, a carne murcha por um momento. Entristeço-me de propósito. Já tentei emagrecer até a morte (ao menos morreria mais bonita e as pessoas teriam mais atenção em mim. Inclusive, minha real atenção não era morrer, era ter gente por perto preocupando-se toda a preocupação que eu sempre quis). Já tentei vomitar o almoço em casa e o jantar na faculdade – mas nem para isso eu sirvo. Sou incapaz de provocar o vômito, completamente incompetente. Já tentei ficar na cama o dia inteiro, mas não posso competir com pedidos maternais. E eu não quero falar para ninguém, porque não me trarão atenção: trarão lições de moral, sermões que não desejo, uma preocupação desnorteada por não querer entender o que está acontecendo.

Sinceramente, não me importo [agora] em passar o resto da vida quieta. O que me incomoda é pensar em passar o resto dos dias sem dizer a verdade à minha mãe, maior e exímia protetora de mim de toda a vida. Do meu pai, minha fortaleza de segurança. Do Matheus, minha paixão incondicional e fiel escudeiro. Da Professora Patrícia, minha companheira de voz branda e compreensiva. Não me importo em calar-me o resto da vida ou o tempo necessário – me importa que não me respeito. Entendo que não consiga fazer nada certo, mas respeito é o mínimo da educação e convivência em sociedade. Eu não quero sentir minha insignificância, por mais que ela seja verdadeira. Eu quero um filho, dois, três, para amar alguém que tenho certeza absoluta que me ama também, pois eu lhe darei amor. Quero filhos para saber que posso acertar com alguém. Quero filhos que digam que me admiram, que querem ser como eu. Quero filhos que ache lindos e inocentes. Eu quero acertar com alguém. Eu quero ensinar alguém. Eu quero precaver todos os erros que causei, todas as lanças que me atingiram. Quero cuidar. Sinceramente, não sei mais o que fazer.

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