A menina que matava caracóis

Filosofias úteis, inúteis e outras coisas que você pode não precisar.

Douler noir

lady3

Foi durante as terceira e quarta mortes que ela apareceu. Tentei matar outras crianças, mas Isabella foi tão unicamente perfeita em sua performance que nenhuma outra se encaixava tão bem no mesmo papel. Foi quando encontrei o espelho. Gêmeas, descobri uma raridade. Percebi que eu era uma amostra exclusiva de uma minoria pouco frequente: as ruivas. Mas gêmeas foi uma dádiva. Com todas as tarefas dobradas, foi mais difícil seguir com os planos comuns. Sequestrá-las, apagá-las. Uma moça como eu precisa de muito esforço para carregar dois corpos pré-adolescentes. Desta vez, fui para casa e as amarrei na garagem, em duas cadeiras. Fitei-as até que acordassem, observando suas cabeças caídas com a gravidade, parecendo tão pesadas… Dois pêndulos em chamas. Tive vontade de puxá-las pelos cabelos para fazer as cabeças balançarem um pouco mais, com mais violência. Podia sentir a dor das raízes retalhando o couro cabeludo. O tipo de dor doentia e enjoativa que tem aquele toque de prazer. Contudo, não quis acordá-las. Esperei creio que meia hora até que despertassem sozinhas, uma antes da outra, desesperadas. Não acreditavam que era uma mulher quem fazia tudo aquilo e chegaram a me dizer que eu não parecia má, que não devia feri-las. Isso só me deixou com mais raiva ainda. Sentada à frente delas, com as pernas abertas e as mãos, quebrando os pulsos, apoiadas na cadeira, perguntei se queriam morrer. Elas gritaram, muito alto, chorando. Não prestei atenção quando se desfizeram em prantos e implorações – recordei-me de cada dia de minha vida. Cada agulha que perfurou a minha pele, cada fósforo que me incendiou; cada noite com monstros de medo, cada lençol que se repetia ensanguentado. Tudo se esclareceria mais tarde.

Sua primeira aparição se deu quando uma das gêmeas tombou a cadeira e caiu junto a ela ao chão. Libertei os olhos ao escutar o estrondo, mas a primeira coisa que vi não foi a queda – uma imagem preta, cor que me persegue, que sempre adorei, atrás delas, de nós. Uma mulher encapuzada, coberta de sombras em um quarto de luz; um ponto denso e pesado de escuridão, com uma cabeça nas mãos, com olhos de redoma e cabelo fogoso. Meu corpo congelou-se inteiramente por dentro, por uma crosta fina e torturante de gelo. Cada pulsar do peito enchia o coração de vidro, doía. A única coisa que via era seu rosto pálido de neve, com lábios carnudos em contraste e olhos mergulhados em breu. Ela me encarava, culpando-me, explodindo-me interna com seu grito estridente e quieto. Somente eu o escutava. Somente eu me destruía. Irritada pelo desespero que não em deixava atentar-me à figura negra, assassinei Tereza que havia caído e desfiz sua cabeça em três pedaços, com crânio e cérebro se misturando. A outra se debateu, tentando se afastar, em pânico. Sentindo o ar escorrer em cachoeira das narinas até a boca, ergui o machado, com sua parte traseira apontada para ela e a derrubei em um só movimento. Ela desfaleceu e eu terminei o serviço. Olhei ambas no piso e suas cabeças rachadas. Um desejo de fazer um desenho simétrico com o sangue tomou conta de mim. Eu queria conectar as duas em algum torneio de curvas, em fios. Levantei os olhos, mas não vi a figura de antes. Ela sumira como a escuridão que a envolvia. Procurei em derredor, vasculhando atrás de móveis e tecidos. Sem sucesso, tornei os olhos às gêmeas – para encontrar o breu. Primeiro, avistei seus pés, tão nevosos quanto a face. Depois fui erguendo o olhar, impedida de conhecer seu corpo, bloqueado pelo fosco da capa. Por fim, cheguei o rosto. Agora, mais de perto, ele tinha mais efeito: me diminuía,me quebrava pouco a pouco, em cortes pequenos e demasiadamente doloridos. Franzi o rosto na tentativa de mostrar-me forte perante a dor. Você, ela disse e uma voz distorcida estourou meus tímpanos em sangue, forçando a gravidade a esmagar-me no solo, encolher-me. A respiração acelerou, os pulmões ofegavam sem cessar; meu corpo inteiro reagiu a uma pessoa a quem eu conhecia e tinha medo. Abel. Mais uma vez, Abel.

Anúncios

Navegação de Post Único

2 opiniões sobre “Douler noir

  1. Rapha em disse:

    Lindo, lindo, lindo e um pouco de medo e envolvente! Já falei que vc escreve bem?

    Como não sei se vou ter tempo para dar uma passadinha aqui depois, desejo já um Feliz Natal e um ótimo 2014! Boas festas (:

    Beijos

    http://mylife-rapha.blogspot.com

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: