A menina que matava caracóis

Filosofias úteis, inúteis e outras coisas que você pode não precisar.

Isabella

murderer2

Eu lembro que… Ela estava brincando ou algo assim. Havia vida nos olhos dela. Aquele tipo de vida pura e imaculada, verdadeira. O formato levemente achatado do nariz, a boca de lábios um pouco finos demais. O rosto redondo, despontando suave apenas no queixo. O cabelo quente se derramava por sua testa, tenro e virgem. Ruiva como eu. Foi a primeira vez que matei uma garota. A princípio, meu alvo seria uma criança por ser mais fácil – assim eu não precisaria controlar tanto meu nervosismo. Mas acho que… Percebi que a escolhi por invejar o que ela tinha. Era injusto, muito injusto que eu tivesse vivido anos terríveis sem merecer ao passo que tantos monstros vagam impunes. Também foi vingança. É inadmissível que todos continuem suas rotinas normalmente enquanto me destruo por dentro, sozinha. Sempre sozinha. Nem em centros urbanos minha solidão era curada. Eu preciso de uma companhia…. De alguém que me entenda… Alguém como eu. Não suporto ficar comigo mesma, eu preciso de outra vertente, outra possibilidade de mim. Uma eu que viva de verdade, que não enfrente tantas tragédias, que nunca tenha caído em desgraça.

Recordo que a observei por um tempo, por alguns dias. Ela gostava de vestidos, daqueles que vão além dos joelhos. Algumas sardas singulares desciam das maçãs do rosto até os ombros e às clavículas. Irritei-me, ela não devia ter sardas. Eu não as tenho, nunca tive. Ao terceiro dia, quando o céu já se coloria com o lilás gélido do final da tarde, eu a agarrei por trás, sem conseguir conter o desejo de cravar as unhas até sentir sua pele sob elas – substituindo a terra que um dia me cobriu. Ela tentou morder minha mão, mas eu a apertei ainda mais. No começo, eu não as matava em casa, nem usava o machado. Na verdade, eu tive dó de usar o machado com a… Isabella, acho que era o nome. Uma garota pequena demais, por volta dos seis ou sete anos – uma machadada dividiria sua cabeça em dois na mesma hora. Não queria que ela ficasse feia. Então eu a joguei contra uma parede algumas vezes, com força, até que ela perdeu a força das pernas. Chorava bastante, eu lembro. Mas eu, não. Eu a olhava fixamente, analisando cada reação que ela tinha. Não as tentava prever porque errar me enraivecia. Quando finalmente percebi que não havia outra saída, que ela já estava debilitada demais, tive pena – muita pena. Achei melhor dar fim ao seu sofrimento – afinal, ela não tinha culpa, nem havia nascido quando eu estava morrendo. Seus pais, sua mãe já desabaria independente de como ela morresse. Havia deixado meu machado em um canto de uma construção abandonada. Uma vez desmaiada, fi buscá-lo enquanto ela ainda dormia. Mas a queria acordada para saber que ia morrer; que ela não chegasse ao Céu sem saber o que havia acontecido, seria cruel demais. Levantei-a e a chacoalhei, até que abrisse os olhos, nitidamente zonza. Afastei-me o bastante para girar a arma e (precisei de três ou quatro golpes, ainda não tinha experiência) decepei sua cabeça. Fitei-a por um instante, notando as diferenças entre o silêncio e os momentos permeados por seu choro baixo. Queria guardar a cabeça para mim, era tão bonita. Mas ela iria se decompor e cheiraria mal. Não sei limpar resíduos humanos. Então, a deixei lá, combatendo a culpa que me esmagava por não levar a cabeça comigo.

Da primeira vez, não senti nada que não fosse o que descrevi. Sem paz, sem alívio de matar que todos pensam que os assassinos tem. Agora eu tinha um título: assassina. Uma palavra tão elegante de dizer, tão fina e sensual, esbelta. A língua sopra, tornando a voz imperceptivelmente estridente quando na terceira sílaba, aludindo ao som da lâmina de uma faca tinindo num breve fulgor. Tão venenosa. E a culpa e o desespero me farão matar mais.

Anúncios

Navegação de Post Único

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: