A menina que matava caracóis

Filosofias úteis, inúteis e outras coisas que você pode não precisar.

Cólera (A moléstia da Escuridão)

murderer

Eu quero ser má. Quero ser uma pessoa ruim, terrível. Cultivar desejos doentios pelos outros. Pensar que o mal é tão simples… Que está praticamente tudo ao meu alcance. Meu corpo em movimentos viciantes os quais não posso mais controlar; o pescoço se entorta, as narinas se contorcem, as pálpebras aperta, a coluna vibra. E o choro escondido na linha baixa do olho é violentamente impedido. Sou escrava do vício, da adrenalina da tristeza. Eu senti o metal no odor do sangue maculando minha jaqueta, minha pele. O rubro coagulando embaixo de minhas unhas, e senti como se tivesse matado alguém.  Esfreguei-o sobre minhas mãos, rosando as linhas das digitais. Os nós dos músculos retesados doem tanto. Cada arrepio de frio me machuca. Eu queria lamber o sangue. Perscrutar cada esconderijo do abrigo das mãos com minha língua, encontrar os pontos de plasma acumulado. Como se eu degustasse o gume da faca. Certamente, se fosse assassina, seria serial. E carnívora. Humanamente carnívora. Sentir os nervos nadando nas papilas, cada fio de carne fria num deslize aflito pela garganta. Por que não sinto mais a agonia? A angústia que me consumia viva, que apodrecia meus músculos, forçando-os a encolher ao ponto da dor? Eu quero sangue cobrindo cada centímetro das roupas. Gosto de como ele se mistura ao jeans, criando um vermelho putrefato e lúgubre. Doentio. Como uma assassina em série, carnívora. Gerando medo verdadeiro. Eu caminharia na rua apenas para criar pavor. Os olhares de estranhamento, em pânico, em completa paralisia. E seria certamente hilário, porque deviam saber que não tenho a intenção de matar todos. Não agora. Um assassino serial tem seu alvo. Eu escolheria um, só um de cada vez. Provavelmente alguma menina loira, de cabelos compridos e meio ondulados, bem claros e brilhantes; alguma bem jovem, a partir dos quinze anos, que beirasse no máximo os vinte ou vinte e três, acho. Ela seria bem vestida, com uma saia e uma blusa delicada e colorida, diferente e moderna. Não sei que cor são os olhos, estão abaixados, lendo qualquer coisa – provavelmente mensagens – no celular. Distraída, levada pelo acaso, pelo simples fato de não ter pesos na vida, por não ter – ou melhor, por não se importar – com as preocupações. A vida dela é leve, recheada de gente, indivíduos que não chegam aos pés dela – não porque ela os esnoba, pelo contrário, ela os trata bem e os faz sentir da melhor forma que uma pessoa o poderia fazer – mas porque ela é completamente intocável, inalmejável, inalcançável. Uma deusa por aclamação. Enquanto ela vive numa na luz, sou rodeada por uma aura negra de tristeza e peso, a escuridão genuína da qual ninguém nunca provou. Minhas costas arqueadas pela fadiga de carregá-la. As mãos trêmulas por insanidade, os olhos movendo-se sem parar por terem se embebido no vício – esse termo tão saboroso de proferir, emanante de um pus de veneno de cobra. Carrego Cleópatra no peito, no corpo. As unhas frementes arranhando a mim mesma, como seres de vida própria. Não me pertenço mais. Meu corpo agora é dono de mim, dono de minhas vontades, de minhas sensações e sentimentos. E num papel de bom corpo – na essência mais real do que já foi estudado quanto ao pequeno léxico “bom” – ele exala as tentações de maneira física. E eu sigo. Como um filhote de cachorro que precisa de um dono, sou eu a viciada que segue o corpo atrás de carne, o que, na verdade, torna-se bastante irônico. Ele precisa de fibra, sangue, músculo para viver. Precisa rasgá-los no dente para que o contato seja o mais próximo e o resultado o mais certo possível. Eu quero sentir as veias embrenhando-se entre a gengiva. Ela vai se assustar tão meiga… Vai erguer os olhos da tela brilhante e, de repente, se foi. Avistou-me quando já era tarde demais. Eu não sou nada. Sou mais baixa, de cabelos mais curtos, mais castanhos, menos magra. Não venho de família consagrada, não tenho dinheiro, inteligência. Mas tenho o que ninguém mais tem: escuridão. Sempre sozinha. Eu carrego a decadência do mundo nas costas. Passa um tempo e você se acostuma ao peso, mas ele continua ali. E tenho o breu, a pior das penumbras – feche os olhos e saboreie cada sílaba na saliva: tenho a escuridão – porque pessoas como meus alvos tiraram-me o que me era mais importante, arrancaram de meu alcance tudo o que eu mais precisava e que agora não posso nem almejar: a felicidade verdadeira, pura. Elegerei uma ordem para eliminar os que odeio mais primeiro. Será uma chacina, o mundo todo vai pagar; porque, oras, o resto do mundo também ajudou.

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