A menina que matava caracóis

Filosofias úteis, inúteis e outras coisas que você pode não precisar.

Arquivo para o mês “julho, 2013”

Void

Void

“Então, enquanto rolo em meus lençois,
e, mais uma vez, não consigo dormir.
Saio pela porta e subo a rua,
Olhos para as estrelas
abaixo dos meus pés.
Lembro dos direitos que fiz errado.
Então aqui vou eu.
Olá, olá.

Não há lugar que eu não possa ir.
Minha mente está turva mas
o coração está pesado,
parece?
Perco a trilha que me perde,
então aqui vou eu.

Então mandei alguns homens para lutar
e um voltou no final da noite,
disse que viu meu inimigo,
disse que se parecia exatamente como eu.
Então saí para me cortar.
E aqui vou eu.

Não estou chamando por uma segunda chance,
estou gritando no topo de minha voz.
Dê-me razão, mas não me dê motivo,
porque só cometerei o mesmo erro de novo.

E talvez um dia, nós nos encontremos,
e talvez conversar, não só falar.
Não compre promessas,
porque não há promessas que eu mantenho.
E meu reflexo me causa problemas,
então aqui vou eu.

Não estou chamando por uma segunda chance,
estou gritando no topo de minha voz.
Dê-me razão, mas não me dê motivo,
porque só cometerei o mesmo erro de novo.

Então, enquanto rolo em meus lençois,
e, mais uma vez, não consigo dormir.
Saio pela porta e subo a rua.
Olho as estrelas,
olhos as estrelas por ora
e me pergunto onde foi que errei.”
Same mistake – James Blunt

Estou me destruindo. Consigo inclusive escutar o piso muitíssimo espesso, de azulejos desenhados em vermelho e violeta, quebrando-se, ruindo dentro de mim. Às vezes, é de repente que ele se afunda em V e lança os minúsculos cacos quase em pó em meus olhos. Mas por outras tento contar quantas vezes consecutivas ele estronde enquanto se rompe se parar. Não consigo mais dormir à noite. Não me deixo. Só adormeço quando meu eu rende-se ao cansaço e a tristeza, à solidão. Entretanto, agora é diferente, porque sei o motivo de estar sozinha. Eu me obriguei a isso, obriguei aos outros fazerem isso c0migo. Ultimamente tenho sentido tantas coisas que não sentia mais. Acho. Provavelmente sentia, mas negava, fingia que não entendia, não queria acreditar. Tanta raiva, tanto egoísmo, tanta culpa. Penso que, no final, era para ser assim mesmo. O sono me toma pela fadiga noturna e por abrigar-se no vazio de meu corpo. Os vícios sumiram um pouco… Porque estou me apagando… Estou sumindo… Sinto que estou morrendo. Mas todos nós estamos, certo? É desesperador não saber o que fazer. Não quero fazer tudo isso comigo mesma… Eu pensava que meu maior problema era ter muita consciência sobre quase tudo. Mas acho que é o contrário que está me fazendo tanto mal. E tenho certeza de que há gente contente com isso. Ao mesmo tempo que isso me acende uma raiva ardente, quase esqueço-me da pena que também se cobre em minha penumbra… Eles não entendem a sinceridade de tudo isso.

Vômito

Por que ninguém me ajuda? Por que ninguém olha para mim? Faço a minha parte, mas não adianta vomitar palavras presas no âmago, se ninguém as quer ouvir. Por que não falam sobre isso? Eu sou realmente sozinha?

Cólera (A moléstia da Escuridão)

murderer

Eu quero ser má. Quero ser uma pessoa ruim, terrível. Cultivar desejos doentios pelos outros. Pensar que o mal é tão simples… Que está praticamente tudo ao meu alcance. Meu corpo em movimentos viciantes os quais não posso mais controlar; o pescoço se entorta, as narinas se contorcem, as pálpebras aperta, a coluna vibra. E o choro escondido na linha baixa do olho é violentamente impedido. Sou escrava do vício, da adrenalina da tristeza. Eu senti o metal no odor do sangue maculando minha jaqueta, minha pele. O rubro coagulando embaixo de minhas unhas, e senti como se tivesse matado alguém.  Esfreguei-o sobre minhas mãos, rosando as linhas das digitais. Os nós dos músculos retesados doem tanto. Cada arrepio de frio me machuca. Eu queria lamber o sangue. Perscrutar cada esconderijo do abrigo das mãos com minha língua, encontrar os pontos de plasma acumulado. Como se eu degustasse o gume da faca. Certamente, se fosse assassina, seria serial. E carnívora. Humanamente carnívora. Sentir os nervos nadando nas papilas, cada fio de carne fria num deslize aflito pela garganta. Por que não sinto mais a agonia? A angústia que me consumia viva, que apodrecia meus músculos, forçando-os a encolher ao ponto da dor? Eu quero sangue cobrindo cada centímetro das roupas. Gosto de como ele se mistura ao jeans, criando um vermelho putrefato e lúgubre. Doentio. Como uma assassina em série, carnívora. Gerando medo verdadeiro. Eu caminharia na rua apenas para criar pavor. Os olhares de estranhamento, em pânico, em completa paralisia. E seria certamente hilário, porque deviam saber que não tenho a intenção de matar todos. Não agora. Um assassino serial tem seu alvo. Eu escolheria um, só um de cada vez. Provavelmente alguma menina loira, de cabelos compridos e meio ondulados, bem claros e brilhantes; alguma bem jovem, a partir dos quinze anos, que beirasse no máximo os vinte ou vinte e três, acho. Ela seria bem vestida, com uma saia e uma blusa delicada e colorida, diferente e moderna. Não sei que cor são os olhos, estão abaixados, lendo qualquer coisa – provavelmente mensagens – no celular. Distraída, levada pelo acaso, pelo simples fato de não ter pesos na vida, por não ter – ou melhor, por não se importar – com as preocupações. A vida dela é leve, recheada de gente, indivíduos que não chegam aos pés dela – não porque ela os esnoba, pelo contrário, ela os trata bem e os faz sentir da melhor forma que uma pessoa o poderia fazer – mas porque ela é completamente intocável, inalmejável, inalcançável. Uma deusa por aclamação. Enquanto ela vive numa na luz, sou rodeada por uma aura negra de tristeza e peso, a escuridão genuína da qual ninguém nunca provou. Minhas costas arqueadas pela fadiga de carregá-la. As mãos trêmulas por insanidade, os olhos movendo-se sem parar por terem se embebido no vício – esse termo tão saboroso de proferir, emanante de um pus de veneno de cobra. Carrego Cleópatra no peito, no corpo. As unhas frementes arranhando a mim mesma, como seres de vida própria. Não me pertenço mais. Meu corpo agora é dono de mim, dono de minhas vontades, de minhas sensações e sentimentos. E num papel de bom corpo – na essência mais real do que já foi estudado quanto ao pequeno léxico “bom” – ele exala as tentações de maneira física. E eu sigo. Como um filhote de cachorro que precisa de um dono, sou eu a viciada que segue o corpo atrás de carne, o que, na verdade, torna-se bastante irônico. Ele precisa de fibra, sangue, músculo para viver. Precisa rasgá-los no dente para que o contato seja o mais próximo e o resultado o mais certo possível. Eu quero sentir as veias embrenhando-se entre a gengiva. Ela vai se assustar tão meiga… Vai erguer os olhos da tela brilhante e, de repente, se foi. Avistou-me quando já era tarde demais. Eu não sou nada. Sou mais baixa, de cabelos mais curtos, mais castanhos, menos magra. Não venho de família consagrada, não tenho dinheiro, inteligência. Mas tenho o que ninguém mais tem: escuridão. Sempre sozinha. Eu carrego a decadência do mundo nas costas. Passa um tempo e você se acostuma ao peso, mas ele continua ali. E tenho o breu, a pior das penumbras – feche os olhos e saboreie cada sílaba na saliva: tenho a escuridão – porque pessoas como meus alvos tiraram-me o que me era mais importante, arrancaram de meu alcance tudo o que eu mais precisava e que agora não posso nem almejar: a felicidade verdadeira, pura. Elegerei uma ordem para eliminar os que odeio mais primeiro. Será uma chacina, o mundo todo vai pagar; porque, oras, o resto do mundo também ajudou.

Insano

A alegria da vida agora me parece tão falsa. Não porque estou infeliz, mas porque… Não somos. Criamos uma ilusão de felicidade e acreditamos nela como um deus. Mas é mentira. É mentira. Nós não somos nem nunca seremos realmente felizes. Somos escravos de regras que fingem conhecer a verdadeira felicidade, sendo que nem elas são felizes. Somos escravos do tempo, do trabalho, de esforços que nos dizem ser necessários para uma vida de dedicação e dignidade, quando a única coisa que esses esforços fazem é destruí-las! Talvez sejamos todos loucos. Cada qual em seu espaço próprio, sem deixar que o encostem totalmente. E a inocência infantil parece-me tão falsa. Ela não existe. Nada do que acreditamos existe, porque negamos nossa própria existência. Negamos que sofremos, negamos que somos infelizes – sempre tentando acreditar que tudo pode mudar, mas não vai, apenas pelo fato de que não podemos tomar qualquer atitude sem antes aceitar aquilo que nos rodeia. Sinto-me tão inútil pensando que fui criada e que os pais educam seus filhos esperando-lhes o melhor, mas todos crescem e se enchem de malícia e de perigos que não existiam antes! Todos crescem e tem problemas que não tínhamos! Todos crescem e tornam-se insanos, malucos! E nos prendemos a isso porque esse ciclo de infelicidade, de insatisfação nos prende como um vício, porque é ele que nos faz acreditar que ele mesmo não existe! E tudo vai para o lixo. Porque nada serve enquanto não crescermos… Em qualquer sentido que eu queira ter dito.

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