A menina que matava caracóis

Filosofias úteis, inúteis e outras coisas que você pode não precisar.

Príncipe das Cruzadas

Altair3(Devidos créditos ao Lucas Elder pela dica de imagem)
(Sim, o texto é sobre o Altair, do AC. Mas o eu-lírico não sou eu)

Começa pelo olhar a sensação que me causa: uma rajada fina e retilínea que me corta abruptamente, num tiro pela íris, como um projétil que penetra num lago escuro de água densa. A imagem dele – um homem robusto, forte, bruto – que me encara num ângulo incisivo e sensual. Sua respiração quente complementa o mormaço desértico que lhe seca a pele. Ele rufa discreto e marcante em toda a violência de seu corpo, destroçando-me no prazer da dor de senti-lo em mim sem nem mesmo me tocar. É de propósito, porque sou submissa a ele; sou sua apenas se ele permitir e, ao mesmo tempo, sei que também deseja ser meu. Ele. Até a palavra me soa quente na boca. A saliva fervente, meu corpo quer sua língua na minha. Anseio desesperadamente pertencer, sucumbir aos seus lábios ásperos que acariciam minha pele, esfolando-a, escapando-me gemidos mesclados de orgasmo e laceração. Posso sentir meus músculos retesarem enquanto a respiração fremente vibra os lábios, soprando calor em seu ombro. Ele gosta, goza na vulnerabilidade de meu ser perante sua presença. O controle, o domínio sobre a fragilidade. E, de repente, estamos distantes do mundo numa sala infinita de paredes de escuridão; a poeira morna nos envolvendo, acolhendo-nos no breu como se fosse nossa única proteção – a singular garantia de que estamos juntos sem perigos. A penumbra nos reconhece como um só num abraço de toque incompleto, áspero, grosseiro, envolvente e trêmulo, este por minha parte – pois ele é firme, meu príncipe das Cruzadas, oculto, poderoso, titânico. Sua magnitude para comigo é macia e protetora, numa quietude bruta habitual e nervosa. Sua rispidez, seus mistérios, me instigam, atraem, excitam.

Só então percebo que ele está à espera de minha despedida. Não podemos nos tocar, sequer aproximarmos mais que alguns metros; não devemos nos desejar colados um ao outro, num cotidiano comum e alegre, perfeito. Somos o segredo da humanidade, um ponto cego tortuoso e cruel, atroz em cada chibatada – pois ele é um príncipe das sombras sob o sol, sem nome, sem rosto, filho de ninguém. E eu, a plebeia, predestinada, comprometida, corrompida pelo proíbio da paixão. Também escondida, sou mais que uma mulher comum, herege às regras padrões. Nenhum de nós pode ou deve ser descoberto. Nenhum de nós deveria lembrar que se conhece. Ele me apressa, não querendo ir sem que eu note, imersa na perdição. Olho-o preocupada; rezo interna, apreensiva por sua volta incerta. Então, numa conexão íntima e única, intensissíssima – mais forte até que sua imponência – ele se vai, deixando em prantos nossas almas, os olhares. Num salto rodeado por uma liberdade indesejada, ele some, se esvai. E os segundos que me estrangularam o coração agora o parte em pedaços sangrentos, numa corrente de espinhos.

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