A menina que matava caracóis

Filosofias úteis, inúteis e outras coisas que você pode não precisar.

Arquivo para o mês “março, 2013”

Vitória

gárgula

“Eu vim para vencer, lutar, conquistar, prosperar,
Eu vim para vencer, sobreviver, prosperar, erguer-me,
Para voar

Eu queria que hoje chovesse o dia todo
Talvez isso meio que fizesse a dor ir embora
Tentando te perdoar por me abandonar
Mas ainda acho que sou um anjo distante
Um anjo distante, estranho de certa forma

Deve ser por isso que persigo estranhos
Eles pegam suas armas e miram em mim
Mas eu me aproximo quando miram em mim

Eu, eu contra eles
Eu contra inimigos, eu contra amigos
De alguma forma, ambos parecem tornar-se um
Um mar cheio de tubarões, todos eles farejam sangue

Eles começam a chegar e eu começo a subir,
Deve ser surpreendente, sou apenas conjecturas,
Vencer, prosperar, planar, mais alto, mais alto
Mais fogo

Todos tentam me encaixar
Sufocante sempre que me trancam
Pintam as próprias imagens e depois tentam me enquadrar

Mas ficarei onde começa o topo
Pois não sou uma palavra, não sou um verso,
Não sou uma garota que pode ser definida

Não sou um voo, sou uma levitação
Represento uma geração inteira,
Ouço as críticas em alto e bom som
É assim que sei que a hora está perto

Então tornamo-nos vivos numa época de medo
E não tenho tempo a perder
Chorando demais dia após dia
Um fardo tão pesado posto sobre mim
Mas quando você trabalha duro seus ‘nãos’ viram ‘sims’

Prepare-se para isso,
Eu vim para vencer

Eu vim para vencer, lutar, conquistar, prosperar
Eu vim para vencer, sobreviver, prosperar, erguer-me
Para voar
Para voar”
Fly – Nicki Minaj feat. Rihanna

Meu corpo é oco para cuidar da incrível fonte de luz que se abriga em meu ser. É uma esfera média, amarelinha como uma chama de vela, que irradia em ondas círculos de luz. Ao mesmo tempo em que me esvazia, me preenche de uma substância abstrata, de um ar diferente, exclusivo. Uma nuvem que cheira à erva cidreira, perfumando-me interna, tornando-me um ponto de esperança. Ela é um complemento de mim, renovação da minha fé em lutar sem parar – porque mesmo quando cessamos por um intervalo, nos preparamos para a próxima leva. Sentados num saco de estopa, deixados no deserto. Esperam que morramos por cobras, mas vão se decepcionar. Porque vamos sobreviver. Não de um modo vitorioso por esperança e – estranhamente – por também desespero; será uma vitória gloriosa, iluminada, extremamente intensa. Vamos erguer nossas espadas sujas de areia, o sol nos queimando até os ossos.  Nem seu corpo aguenta fisicamente – mas você está lá para vencer. Para mostrar a todos que nenhuma das tentativas de descrédito por medo e crueldade te derrubou. Você olha a luz ardente no céu, deixando lágrimas escorrerem muito rápidas pela luz que te desidrata o cristalino e pela glória dourada que conquistou. Heroica. Hercúlea. Você grita, ri, cai em prantos numa euforia maravilhosa de não saber o que fazer! A energia é tanta, a felicidade pura e genuína é tão grande que as únicas palavras nas quais você pensa são Eu consegui. Depois de tudo, depois de chorar tanto, de me quebrar, de gritar de dor e desespero. Depois de tantos esforços, depois de tanto desejar desaparecer com a poeira no ar, de não existir. Depois de tudo – TUDO – eu consegui. Eu provei a todos, e ainda melhor, a mim mesma que posso, que estou aqui, que sou incrível e heroína de mim mesma. Você soluça, descontrola a respiração, grita pelo amor, pela alegria de saber disso tudo. De saber que você não é um peso insignificante. Que tudo é tão lindo e perfeito. Por perceber o quanto você é forte, o tamanho da sua fé. O alívio e os sorrisos mais verdadeiros do mundo saem na respiração, doendo demais ao raspar nos brônquios, na garganta – porque você não quer deixá-los sair NUNCA. Eles são seus, você é de si mesmo, o mundo é seu se desejar – não por pertencer, mas por você se pertencer. Os olhos já cansados baixam para enxergar suas mãos entre o pó no chão. Já ajoelhado, sentindo seu corpo inteiro trêmulo, você prende o ar dentro e torna a chorar, mais e mais. A felicidade extrema é tamanha que não é possível pensar na melhor maneira de extravasá-la. Você simplesmente a sente e chora como uma criança, verdadeiramente, sem preocupações, sem receios. Chora de verdade, sentindo cada lágrima singular abrir caminho entre os poros. Como uma criança… Um corpinho quente e frágil, que não entende direito o que sente. E é tão bom. Tão libertador, tão glorioso quebrar as próprias correntes.

Príncipe das Cruzadas

Altair3(Devidos créditos ao Lucas Elder pela dica de imagem)
(Sim, o texto é sobre o Altair, do AC. Mas o eu-lírico não sou eu)

Começa pelo olhar a sensação que me causa: uma rajada fina e retilínea que me corta abruptamente, num tiro pela íris, como um projétil que penetra num lago escuro de água densa. A imagem dele – um homem robusto, forte, bruto – que me encara num ângulo incisivo e sensual. Sua respiração quente complementa o mormaço desértico que lhe seca a pele. Ele rufa discreto e marcante em toda a violência de seu corpo, destroçando-me no prazer da dor de senti-lo em mim sem nem mesmo me tocar. É de propósito, porque sou submissa a ele; sou sua apenas se ele permitir e, ao mesmo tempo, sei que também deseja ser meu. Ele. Até a palavra me soa quente na boca. A saliva fervente, meu corpo quer sua língua na minha. Anseio desesperadamente pertencer, sucumbir aos seus lábios ásperos que acariciam minha pele, esfolando-a, escapando-me gemidos mesclados de orgasmo e laceração. Posso sentir meus músculos retesarem enquanto a respiração fremente vibra os lábios, soprando calor em seu ombro. Ele gosta, goza na vulnerabilidade de meu ser perante sua presença. O controle, o domínio sobre a fragilidade. E, de repente, estamos distantes do mundo numa sala infinita de paredes de escuridão; a poeira morna nos envolvendo, acolhendo-nos no breu como se fosse nossa única proteção – a singular garantia de que estamos juntos sem perigos. A penumbra nos reconhece como um só num abraço de toque incompleto, áspero, grosseiro, envolvente e trêmulo, este por minha parte – pois ele é firme, meu príncipe das Cruzadas, oculto, poderoso, titânico. Sua magnitude para comigo é macia e protetora, numa quietude bruta habitual e nervosa. Sua rispidez, seus mistérios, me instigam, atraem, excitam.

Só então percebo que ele está à espera de minha despedida. Não podemos nos tocar, sequer aproximarmos mais que alguns metros; não devemos nos desejar colados um ao outro, num cotidiano comum e alegre, perfeito. Somos o segredo da humanidade, um ponto cego tortuoso e cruel, atroz em cada chibatada – pois ele é um príncipe das sombras sob o sol, sem nome, sem rosto, filho de ninguém. E eu, a plebeia, predestinada, comprometida, corrompida pelo proíbio da paixão. Também escondida, sou mais que uma mulher comum, herege às regras padrões. Nenhum de nós pode ou deve ser descoberto. Nenhum de nós deveria lembrar que se conhece. Ele me apressa, não querendo ir sem que eu note, imersa na perdição. Olho-o preocupada; rezo interna, apreensiva por sua volta incerta. Então, numa conexão íntima e única, intensissíssima – mais forte até que sua imponência – ele se vai, deixando em prantos nossas almas, os olhares. Num salto rodeado por uma liberdade indesejada, ele some, se esvai. E os segundos que me estrangularam o coração agora o parte em pedaços sangrentos, numa corrente de espinhos.

Coração de chumbo

libertação

“Posso quase vê-lo
Aquele sonho que estou sonhando
Mas há uma voz em minha cabeça dizendo
‘Você nunca o alcançará’

Cada passo que tomo,
Cada movimento que faço
Parece perdido em nenhuma direção
Minha fé está chacoalhada
Mas eu preciso ser forte
Preciso manter minha cabeça erguida alta

Sempre haverá outra montanha,
Sempre irei querer movê-la
Sempre haverá uma batalha difícil
Às vezes precisarei perder
Não é sobre quão rápido chegarei lá
Não é sobre o que há do outro lado
É a escalada

Os esforços que estou enfrentando
As chances que estou tomando
Às vezes podem me derrubar
Mas não, não vou quebrar

Posso não saber,
Mas esses são os momentos que lembrarei mais
E eu, eu preciso ser forte
Apenas continuar insistindo porque

Sempre haverá outra montanha,
Sempre irei querer movê-la
Sempre haverá uma batalha difícil
Às vezes precisarei perder
Não é sobre quão rápido chegarei lá
Não é sobre o que há do outro lado
É a escalada

Continue em movimento
Continue escalando
Mantenha a fé
Querido
Mantenha a fé
Mantenha a sua fé”
The climb, Mily Cyrus

As lágrimas que derretem por mim não são pesarosas nem tristes. São lágrimas fortíssimas e poderosas que expulsam de mim todos os resquícios do fardo que carregava. Nada mais salgado sobre dentro. Meu coração de chumbo, sinto seu peso afundar o seio, bombear metal para as veias, encher meu sangue de garra e energia. Agora sei que sou forte, forte de verdade – porque sinto isso genuinamente, na melhor expressão do sentimento. Sinto seu peso físico, a leveza emocional que me faz pairar no ar. Tudo o que derramei hoje, toda a maquiagem escorrida na fronha, tudo valeu a pena, pois foi esse meu golpe de misericórdia. Consigo até sentir a lâmina de minha espada penetrando e rasgando cada camada de carne de meu adversário, de todos os muros e obstáculos, de toda a energia que me quis mal. Livre, enfim!, grito na rouquidão do máximo da voz, seguindo uma risada de felicidade estridente! Não existem mais pesos em mim. Não existem mais pequenas pedrinhas que mantém meus pés no mesmo lugar. Sinto-me leve e sou livre! Não por uma libertação de desespero e desilusão, mas por uma catarse purificadora maravilhosa! Todas as impurezas, todos os pesos de ferro saíram de meu sangue. É vero que ainda vejo suas marcas sombreadas em cinza, mas não é algo a me fazer mal – pois cicatrizes só mostram quão longe você chegou. E ainda quero ter cicatrizes. Elas doem, muito. Mas só na hora de surgirem. Anseio olhar-me no espelho,ver meu corpo repleto de marcas e pensar: “Meu deus… Eu consegui. Eu passei por tudo isso e ainda estou aqui.”. Eu não desisti porque sou uma guerreira. Não uma heroína especial, sou exatamente como vocês. Apertem bem os olhos se quiserem e sintam. Sintam o brilho dourado que há bem no seio, na curva do peito. Ele é pesado porque é forte – e não porque é feito de culpas e erros. Erros só fingem ser pesados – e são mentirosos – porque são tão leves e frágeis que precisam de máscaras para encobrir sua vulnerabilidade. Mas se você os desafiar e usar sua própria força contra eles, correrão aterrorizados por seu poder. Você é forte. Você é brilhante e incrível. Todos temos medos inderrotáveis, erros, arrependimentos. E sabe o que são eles? São caminhos que a crueldade invejosa do mundo encontrou para reprimir seu verdadeiro tamanho – porque é ela que tem medo. Teme você descobrir do que realmente é capaz. Todos vocês são lindos, incríveis, maravilhosos e encantadores. Cada qual com seus saberes a reter e a passar adiante. Cada qual com suas habilidades e peculiaridades belíssimas que lhe destacam em meio a qualquer multidão. Somos unidos em sermos todos únicos. Todos humanos, pessoas. A depressão, a tristeza genuína, está em todos nós – e parece, mas não é, arrebatadora. Ela é simples e, se você olhar lá dentro, não sabe exatamente onde precisa chegar para derrubá-la – mas tenho certeza de que você está tentando. Não importa se pensa que está conseguindo ou não – tentar já muda tudo. E se tentar, passará por dores maiores ainda, advirto. É verdade. E o fará por estar enfrentando a fúria da maldade tortuosa do mundo; mas ela está desesperada, temendo em completo pânico por ver que você está no caminho certo para descobrir a verdadeira luz que tem em si! Não importa quem você é, de onde veio, no que acredita. Lembre-se SEMPRE que você é uma pessoa como qualquer outra: nem mais nem menos. E que se, algum dia, seus pesos parecerem maiores do que sempre foram ou do que realmente são é porque suas tentativas estão dando certo.

Asfixia

fine

“Estou tão cansada que não consigo nem chorar.”
Amy Whinehouse

Não aguento mais, não consigo suportar. Qualquer um pode ver que estou desesperadamente pedindo por ajuda. Em cada tom da íris, em cada análise cotidiana, em cada palavra e gesto. E parece que todos simplesmente ignoram, não veem, mudam de assunto. Eu queria ao menos uma vez na vida ser o centro de todos os dilemas, o mais importante e o mais preocupante. Só uma, apenas para que deixassem brevemente suas vidas de lado e olhassem a minha, prestassem atenção em mim sem julgamentos, com pura compreensão. Mas tudo o que sinto, tudo o que tento para melhorar – nada parece ter valor. Nada que faço parece funcionar. Ninguém enxerga o que está acontecendo comigo! Eu estou tentando e estive durante todos esses anos, as parece que os problemas só vão se acumulando! No final, não sinto que mudei realmente algo em mim, que sou uma pessoa melhor. Sinto-me esquecida, sozinha, cheia de pesos e responsabilidades, carente, angustiada, desesperada, com uma vontade gigantesca de gritar. Causo mal às outras pessoas, às que eu amo. Odeio, me culpo. Por que tudo isso está acontecendo comigo? O que fiz de errado? O que cresci errado? Por que não posso simplesmente levar uma vida normal como as das outras pessoas?

Em cada dizer, um detalhe, um ponto final – é uma tentativa insana de mostrar que não estou bem. Mas acho que ninguém percebe, e isso me frustra tanto. Somente assisto, indiferente e neutra, anestesiada pela dor; vejo meu corpo, meu rosto, se destruir, cair em ruínas, despedaçar. Eu só queria que me perguntassem se estou bem, sem eu precisar falar explicitamente.  Eu só queria sentir – mesmo que superficialmente – que se preocupam com meu estado. Que apenas compreendem e me abracem, repletos de pena e compaixão. Que choram junto a mim. Que não são fortes por um mínimo instante. Que sofram comigo. Que enxergam que estou diferente. Que existe um nó que me asfixia na garganta. Nó de uma corda grossa que sinto descer até o peito, entrando nos pulmões. A sensação é de um fio de cabelo sendo tirado da boca: você sente toda a trajetória tortuosa e aflita, a vontade de que aquilo saia logo do seu corpo. Meu nó nunca sai. Nunca. Só vai aumentando e aumentando…

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