A menina que matava caracóis

Filosofias úteis, inúteis e outras coisas que você pode não precisar.

Arquivo para o mês “janeiro, 2013”

Prisioneira silenciosa

Silêncio

“Ninguém sabe
Ninguém sabe além de mim
Que às vezes eu choro
Se eu pudesse fingir que estou adormecida
quando minhas lágrimas começam a cair
Espio por trás dessas paredes
Mas acho que ninguém sabe

Ninguém gosta
Ninguém gosta de perder aquela voz interior
A que eu costumava ouvir
antes de minha vida tomar uma escolha
Mas acho que ninguém sabe

Baby, este segredo está a salvo comigo
Não há outro lugar no mundo onde eu poderia estar
E, baby, não sinta como se eu estivesse toda sozinha
Quem estará lá quando o último anjo voar?
E eu perdi meu caminho de volta para casa
Mas acho que ninguém sabe
Ninguém sabe

Ninguém se importa
É ganhar ou perder, não como você joga o jogo
E a estrada para a escuridão tem um jeito
de sempre saber meu nome
Mas acho que ninguém sabe

Baby, este segredo está a salvo comigo
Não há outro lugar no mundo onde eu poderia estar
E, baby, não sinta como se eu estivesse toda sozinha
Quem estará lá quando o último anjo voar?
E eu perdi meu caminho de volta para casa
Mas acho que ninguém sabe
Ninguém sabe

Amanhã estarei lá, meu amigo
Acordarei e começarei tudo de novo
quando todo mundo já tiver ido

Ninguém conhece
Ninguém conhece o ritmo do meu coração
O modo que faço quando estou deitada no escuro
E o mundo está adormecido
Mas acho que ninguém sabe
Ninguém sabe, além de mim”
Nobody knows – P!nk

Eu queria chorar. Chorar de verdade. Gritar de ódio e de tristeza, sentir a dor do luto me destruir de dentro para fora, acabar comigo. Queria chorar tanto que meus pulmões se rasgariam de tão ofegantes. Chorar até não conseguir nem respirar. Chorar como se fosse condenada àquilo, como se não soubesse fazer algo diferente. Não quero tentar me aliviar reprimindo o choro em silêncio durante a noite. Não quero enxugar lágrimas para que ninguém as veja. Não quero forçar uma voz normal para que não me perguntem o que está havendo. Quero chorar como se não houvesse amanhã, quero tirar da gargantas todos esses nós cheios de espinhos, que me arranham desde a laringe, cravando-se teimosos em meu coração. Eu não os controlo. Na verdade, não controlo nada. É como se… Eu estivesse presa não num corpo, não numa vida – mas na alma. Um espírito acorrentado, escondido de todo mundo, num calabouço completamente vazio. Sem visitas, sem soberanos, sem carcereiros. Inteiramente solitário. O silêncio mata. A dor destroça. A beleza pálida do vazio após o choro. O alívio falso que cobre os sentimentos até que não haja mais vida em mim. O silêncio que me toma por completo e me prende. Meu silêncio tão precioso. Meu silêncio que é o meu grito mais forte. Minha alma me arranca de tudo aquilo que anseio. Minha própria alma, cruel e vil, sádica e arrependida. Posso sentir o corte em seu peito ao ver-me desmanchar em tristeza e culpar a ela e culpar a mim por uma realidade tão horrorosa. Parece que respirar é contra as regras, como se eu estivesse cometendo todos os erros possíveis. Como se eu fosse boa para nada. Sou fraca e ridícula e quero guardar isso para mim, porque todos os outros são diferentes. Todas as outras pessoas são mais fortes, são incríveis. E há eu. Daria tudo para ser qualquer garota fútil por aí e não ter essa profundidade de espírito – assim, ao menos, poderia não sentir essas coisas. Eu quero ser feliz. Não plenamente nem para sempre. Apenas feliz. Não quero planos nem fugas, eu só preciso do cotidiano para ao menos fingir que está tudo normal, que nada mudou. Isso me faz sentir mais forte. Eu quero um abraço, um beijo simples, um olhar, qualquer palavra carinhosa. Preciso sempre me fortificar antes de agir, porque eu não sei pensar rápido. Não sei montar estratégias. Quero fazer ao menos uma pessoa feliz, apesar dos meus pesares. Quero sentir e provar a mim que sei, sim, que decisões tomar; que sou uma pessoa boa; que não machuco ninguém; que sei seguir minha força interior. Mas eu não sei. E tudo se perde.

Anúncios

A alma que se afoga

lma

“Eu tenho olhado para um espelho por tanto tempo
que comecei a acreditar que minha alma está no outro lado.

Todos os pequenos pedaços caindo, destruídos.
Pedaços de mim pontiagudos demais para pô-los de volta
pequenos demais para importar,
mas grandes o bastante para me cortar em tantos pedacinhos se eu tentar tocá-la.

E eu sangro, eu sangro.
E eu respiro, eu respiro não mais.

Tomo fôlego e tento respirar do poço de meus espíritos.
Mais uma vez você se recusa a beber, como uma criança teimosa.
Minta para mim e me convença de que sou doente desde sempre
E tudo isso fará sentido quando eu melhorar.
Mas eu sei a diferença entre mim e meu reflexo,
apenas não consigo evitar de ficar me perguntando
qual de nós você ama.

Então eu sangro, eu sangro
e eu respiro, eu respiro
Eu sangro, eu sangro
e eu respiro, eu respiro,
eu respiro, eu respiro não mais.”
Breathe no more – Evanescence

Olho a luz do sol na superfície d’água e moldo os olhos numa despedida desesperada. Não consigo chorar, não consigo gritar. Sinto a pressão da água me envolver, apertar-me contra meu próprio corpo, pressionar meu peito. Não posso nem gritar um adeus. Estar tão perto e estar ao mesmo tempo tão longe, nunca fez tanto sentido. O sol distorcido pelo meio líquido se gaba por um dia maravilhoso, morno e alegre, recheado de crianças sorrindo e gente correndo para lá e para cá – e ninguém sabe que estou aqui. Ninguém. No fundo do mar, enxergo a todos, mas nenhum deles me vê sequer. Sou um segredo submarino. Quiçá alguém esteja me procurando, mas não vai encontrar, porque não olham para  água. O sol não tem nem a decência de me esquentar aqui embaixo. Ele me esnoba, esfregando em minha cara tudo o que ele tem que eu jamais terei. Afogo-me vendo todos ao redor respirarem. Morrer dói. Mais que fisicamente, morrer dói. A vida não é o que você esperava; você sabe que pode consertar porque sente a energia explosiva e devastadora que existe dentro de ti, iluminando seu ser inteiramente! Você sabe que é forte, sente o poder luminoso – e não fez nada. Nenhuma tentativa sequer. Deixou a vida fluir como água, levando-te para onde quer que fosse. Morrer dói. Então, desisto de lutar. Meu corpo relaxa, minha garganta se cala. Não preciso mais chorar, não preciso mais gritar. Com os lábios entre-abertos, olho ao redor com olhos vazios e vejo a poeira na água escura arrepiar meus pelos de frio. Sinto minhas mãos flutuarem livremente sem qualquer força para intervê-las. Entrego o corpo, mas mantenho a alma. Ainda que completamente sem mais essência e peso, guardo-a comigo para morrermos juntas. Para que não digam que não tentei. Não a sinto mais em mim, mas acho que também nem tento muito. Eu a procuro e perco-me na escuridão do eco de meu ser. Meus cabelos dançando como bailarinas na água, sinto-os levitar. Na verdade, seria bom chorar a dor agonizante de sangrar. Destruir-me ao máximo da tristeza verdadeira. Não tenho mais âmago, não tenho mais nada. Sou um corpo oco. Enfim, um tubarão se aproxima. Olho-o na súplica de um golpe de misericórdia. Mate-me, por favor, porque já não aguento mais isso. Mas ele não entende, é um tubarão. E em seus olhos frios, ele expande a mandíbula e me rasga, desgraçando e arrasando a carne que restou em mim. Somente carne. Porque a alma que se afoga tranca o peito e morre – não de verdade, não por inteiro – perdendo-se na desilusão da essência que um dia tomou como sua.

Navegação de Posts

%d blogueiros gostam disto: