A menina que matava caracóis

Filosofias úteis, inúteis e outras coisas que você pode não precisar.

Arquivo para o mês “dezembro, 2012”

Breve expressão da tristeza

heart

Garotinha, garotinha, por que está chorando?
Dentro de sua alma sem descanso,
seu coração está morrendo.

Quando ela era apenas uma garota
ela tinha expectativas sobre o mundo
Mas elas voaram do seu alcance
E ela fugiu em seu sono
Sonhava sobre o paraíso
toda vez que fechava os olhos

Quando ela era apenas uma garota
ela tinha expectativas sobre o mundo
Mas elas voaram do seu alcance
E balas pegas com seus dentes

A vida continua,
fica tão pesada,
a roda quebra a borboleta
Cada lágrima, uma cachoeira
Na noite,
na noite tempestuosa,
ela fechou os olhos
Na noite,
na noite tempestuosa,
ela voou para longe
E sonhou com o paraíso,
ela sonhou com o paraíso

Ainda deitada abaixo dos céus tempestuosos
Ela disse
“Oh, eu sei que o sol está pronto para nascer”
Isso poderia ser o paraíso

Paradise – Coldplay

Algum dia eu vou voar para bem longe e ninguém vai me encontrar nem perceber nem sentir minha falta. Na verdade, acho que não me importo se me tiverem saudade. Num toque cruel em meu âmago, eu desejo que sofram com minha ausência. Que chorem e se arrependam. E notem o que deixaram de fazer e o quão importante eu era a eles. Que se corroam por dentro remoendo atos terríveis e devastadores. Que seus corações se tornem náufragos de uma tragédia brevemente irreversível. E depois tudo ficará bem, porque não sou de inteiro má. Ninguém vai se lembrar de mim e, embora isso me cause tristeza de choro, estarei bem. Porque estarei comigo e com quem amo incondicionalmente. Estarei bem por respirar serenidade pura. Estarei bem porque não terei outra opção. Porque, se eu mesma não me importar comigo, ninguém se importará.

Heroína de mim

freedom

Não escrevo bem. Escrevo meus olhos, meu cérebro e meu coração. Escrevo para gritar ao mundo o que não posso sussurrar no ouvido de uma úncia pessoa. Escrevo para que saibam quem realmente sou. Escrevo porque esse é o meu canto de vitória, meu extravasar da alma. Pois sou alguém preso. Alguém preso em si mesmo, que se debate pelas paredes gritando “Soltem-se, por favor!”. Grito esvaziando completamente meus pulmões, até que não tenho mais forças para sustentar meu corpo e deixo-o cair no chão, exaurida. Chorando. Eu liberto uma parte de minha alma cada vez que choro. Libertando-a liquefeita até evaporar-se pelo ar e espalhar-se pela Terra. Não morro em partes, eu vivo aos poucos. Não importa o que aconteça, caso eu siga na vida ou na morte, eu só quero sentir minha alma dentro de mim. Na essência que eu sei que é extremamente alegre e inteiramente vitalícia! Na força e no brilho maravilhoso e colorido que é a vida! E quando, no carro lotado, ponho meus fones e permito que a música penetre em mim; quando reprimo minhas lágrimas e quando sinto meus desejos à flor da pele, num turbilhão de ar e sedimentos nas traqueias; quando olho pela janela do auto e as placas da estrada não me são mais objetos cotidianos; quando vejo a mágica em cada pedaço do mundo; eu sou um universo. Um universo inteiro dentro de um carro de quarto portas, rodeado por gente que nem sabe o que está acontecendo. Devo confessar que é algo divertido e levemente cômico de se passar. E incrível também, pois sinto-me especial. Porque sou especial. Sou uma galáxia repleta de constelações lindíssimas e inacreditáveis, que variam entre tons de  rosa, branco e lilás. Os arcos prateados que se formam exibindo orgulhosos e acolhedores sua cor branca brilhante. Sou eu. Sou eu novamente. É a ponta da minha alma. E sinto-a explodindo num grito, num sorriso, num choro devastador de tanta intensidade maravilhosa! Choro de alegria, eu consegui! Eu sei que vou conseguir, porque minha alma clama por isso há tempos! Sou aplaudida, aclamada, erguida pelas mãos do povo! Todos me querem porque sabem quem eu sou. Porque eu tenho aquela força maravilhosa que todos desejamos ter. E eu sei que tenho. E eu sei que vou conseguir. Vou olhar os céus em seu azul-claro sereno e nuvens imponentes, sentindo o calor do sol nas costas e atrás do rosto, retorcer um pouco as sobrancelhas e chorar suave. Não preciso te encontrar obrigatoriamente, você simplesmente saberá que consegui. E quando nos encontrarmos, vamos nos abraçar com toda a força que nunca tivemos e choraremos um no ombro do outro, pela alegria genuína sem explicação. A partir daí, todos os dias serão ensolarados. Eu nunca mais serei essa prisioneira submissa que já me ensinou tanta coisa, mas que agora precisa ir embora. Serei minha e toda minha. E escreverei para gritar ao reprimidos o que precisam. Escreverei para expressar minha gratidão a esse meu espaço que me acolheu por tanto tempo. Escreverei para mostrar a todos que é possível. Escreverei para mostrar quem sou, para que a boa nova se espalhe. Para que o mundo fique cada vez mais lindo.

Suserana

samurai girl

Não vou cair, prometo. Não vou cair porque cair significa te levar junto – e não posso, em hipótese alguma, fazer isso com você. Não posso tirar de você tudo o que você tem, como às vezes sinto que tiraram de mim. Sou uma garota de rua que, mesmo após perder TUDO, vai continuar lutando por você. Vou calçar minhas botas, por um jaqueta e seguir pelas ruas com todo o estilo que não tenho. Não tenho dinheiro, não tenho um apartamento decente, mas não desisto. Porque eu tenho uma causa e alguém a quem voltar. Não me importa o que digam as pessoas, não quero saber, estou travando uma guerra dentro de mim! E se querem saber, é uma guerra linda. Junto a todos aqueles que me causam a expressão mais verdadeira e poderosa de empatia e amor. EU SOU LEAL A TODOS VOCÊS. LEALDADE DE VERDADE. UM TIPO DE AMOR CHAMADO LEALDADE. Lealdade de quem está à beira da morte e da falência, mas não desiste porque não pode deixar alguém sozinho. Não porque não vivem sem você, mas porque você não vive sem eles. São simplesmente grandiosos, maravilhosos e divinos! Não há quem você admire mais! E você os ama tanto, tanto, tanto que os quer proteger de qualquer coisa que possa causar-lhes mal. E seria EGOÍSMO desistir perante eles. Você aguenta o que der e vier, independente da situação, inclusive aquilo que sabe que não pode suportar. Você vai rastejar na areia infernal do deserto e, com as mãos calejadas e as bochechas queimadas, vai seguir em frente. Mesmo que você rasteje pelo resto da sua vida, mesmo que não sinta mais suas pernas, mesmo que não coma nem beba, mesmo que delire. Você está lá por eles e não precisa de suprimentos para te manter – porque o que te sustenta em pé é uma força inacreditável cheia de lealdade, como um suserano e um vassalo. E embora o choro te arrebate o rosto pelo desespero de temer o fracasso, você sabe que vai conseguir. Porque você não se permite sucumbir e NADA vai te fazer mudar de ideia. Você toma novos princípios, você escolhe novas rotas. E quando você estiver numa grande batalha, atacada pelo medo, você vai respirar fundo e sentir o ar forçar caminho pelas suas traqueias, fazendo doer muito. Vai apertar os olhos, talvez fechá-los por um instante, e vai encarar seu inimigo como nunca encarou ninguém antes. E apesar do medo inabalável,apesar de suas pernas tremerem e não terem mais força para manter seu corpo. Você sente os músculos falhares e sucumbirem em espasmos. E você está em pé. E apesar de ver o mundo inteiro ao seu redor, armado com tridentes e tochas, você os encara como nunca encarou ninguém na vida e finalmente profere: podem vir.

Suicídio redentor

eumo

De repente, tudo ficou em silêncio, como se nada mais existisse. Como se o mundo fosse vazio e apenas o ar fosse escutado. Nada, ninguém. Nem brigas, nem sorrisos. Eu senti uma leveza estranha, uma leveza de suicídio. Em parte triste e opressora, quase neutra; em parte libertadora. Senti como se meu corpo fosse minha alma e a única coisa que sentia na carne era como se sangue quente escorresse dos pulsos às mãos, se arraigando no tecido do lençol, penetrando no colchão. Imaginei alguém abrindo a portas e descobrindo a cena. O susto, o medo, o desespero do descobridor, podia ver em seus olhos. Mas eu sorria e achava graça. Um sorriso cansado pela falta de forças, mas encantador. Porque enquanto tentavam me salvar, eu olhava o céu e me sentia livre; eu sabia que já estava salva. Eu sou livre, na maravilha ultrarromântica que é o refúgio da morte. O coração espancando o peito num pulsar fortíssimo e cheio de energia. A felicidade sublime se dando num nó na garganta, sutil. E eu encaro a morte. Alegríssima, contente, engasgando em meu próprio choro. Eu a temo, agradeço e respeito. Sinto-me flutuar na penumbra do quarto.

Me deixa no silêncio morno.
No sono.
Na beleza da vida num quarto escuro
Maravilhoso, encantador.
A cama aquecida
e eu semi-vestida.
A poeira acaricia as costas.
E sou livre.

Não

Mãe bebe

Não é drama, é o sentimento de que toda sua família está desabando e ninguém saber. É enxergar que uma pessoa que você adorava tanto e idolatrava, agora é alguém que te põe numa tortuosa antítese de ódio e amor. É ver sua mãe no limite da irritação e não saber como ajudá-la, porque tudo o que você faz é respondido com descaso e/ou nervosismo. É escutar seu pai reclamar toda vez que está em casa, o dia inteiro. É ouvir sua irmã dizendo coisas horríveis sobre sua mãe e simplesmente fingir que acha graça e que não se envergonha de saber que ela o está dizendo em público, porque você sabe que, de certa forma, ela tem até uma ponta de razão. E cada fragmento de instantes felizes que você consegue é um trunfo. Porém, ao mesmo tempo que um singelo abraço te alegra, também te entristece profundamente. E lá está a antítese novamente. Embora você queira desabafar, chorar, espernear, gritar, quebrar a casa inteira, você se guarda para si – pois aquele momento é tão importantemente alegre que seria desrespeito e desperdício gastá-lo com seu âmago entristecido.  Não importa quantas vezes pergunte, você irá responder: “Sim, estou bem” enquanto vê milhares de cenas desastrosas passarem por sua cabeça. E é apenas quando ele o pergunta que você nota o quão arrebatada está. Você o agarra com todas as forças, com cautela para que ele não veja seus olhos apertadíssimos numa tentativa semi-fracassada de conter algumas lágrimas. Você não quer deixá-lo ir, mas não pode falar – porque precisaria explicar o motivo de querê-lo contigo. Então você apenas o agarra, envolvendo-o na cintura com os braços, com todas as forças que você nunca imaginou ter, numa guerra acirrada cheia de gritos de desespero e espera que adivinhe o que quer, num desejo enganado e cheio de esperança.

E toda vez que estou realmente mal, sento-me debaixo do chuveiro. Talvez pelo sentimento de purificação que a água traz. Primeiro, sinto-a escorrer pelo meu corpo, numa mescla carícia e curso natural. Eu sou apenas um objeto postado ali embaixo, por acaso, e começou a chover. Encolho-me, pondo as pernas na distância limítrofe de proximidade entre elas e meu abdômen. Sinto-as pressionarem meus seios, minha barriga. Os braços as envolvem pelas canela e a cabeça se ajeita, tornando-e num bloco. Apenas respiro sem perceber se muito fundo ou fraquejada, sentindo a água liquefazer meu espírito, até que o liberte. Choro pela destruição, pelas ruínas, sinto-me arrependida por não ter aproveitado meu momento feliz e desejo-o de volta para mim, preocupado, perguntando se estou e tudo o que quero dizer é um “Não”. Não posso falar com minha mãe ou com meu pai, pois sei que escutarei sermões e irritações – enquanto gostaria de ouvir somente um pedido de desculpas e algum tipo de expressão de dó, acompanhados, claro, de um beijo ao topo da cabeça e um abraço.

Eu sinto vento nos braços e me encolho mais diante o frio. Só então me lembro de que fechei a janela e percebo que não é vento, é arrepio. Meu pelo arrepiaram pela temperatura da água, por frio, por desespero. Abro os olhos, já tendo as lágrimas escorrido todas, e vejo o líquido se acumulando em meu colo. Ah, eu lembro que quando era pequena, brincava de Pocahontas no chuveiro. Fico mais um tempo sentada, até que resolvo levantar-me para tomar de fato meu banho e seguir para o quarto. Em determinado momento, perco o equilíbrio e me apoio na parede para não cair. A parede é tão quente. Ela me acolhe, diferente do frio e da água gelada. Ponho-me quase toda contra os azulejos aquecidos pelo calor escaldante da tarde. É como uma criança que dorme acalentada pelo calor do seio da mãe. Então, choro de novo, lamentando ter crescido tanto. Eu quero as regalia da infância, quero em mim a pureza da idade tenra, quero presentear meus pais constantemente, seja com desenhos em folhas sulfites amassadas ou com florzinhas que encontrei no chão. Quero observar atenta um par de folhas comuns, completamente instigada e arrancá-las, para mostrar aos meus pais que sabem tudo. Meus pais que são as melhores pessoas do mundo; as mais fortes, as mais rápidas, as mais inteligentes. Quero a ingenuidade da adoração, quero a genuinidade do verdadeiro amor incondicional. Quero expressar meus amor por eles de toda e qualquer forma, a todo instante, abraçá-los, escrever seus nomes. Minha mãe, maravilhosa, encantadora, cheia de graça, de extremo carinho, linda, incrível. Meu pai, inteligentíssimo, sabedor de todas as coisas, construtor, experiente, cientista, o mais forte, o mais veloz, gorducho, careca, peludo, incrível. Sem conter meu corpo, deixo-me cair agachada, encurvando as costas, sentindo-me como uma rocha debaixo de uma cachoeira. Choro, choro, simplesmente choro. Sei diferenciar as lágrimas da água porque as lágrimas são mornas. Então ergo a cabeça e noto minhas mãos estendidas, oferecendo e exibindo os pulsos, orgulhosas e acolhedoras. Quero encostar neles, senti-los. Sem hesitar, após fitá-los por um breve período de tempo, aconchego meu rosto entre ambos, tocando-os primeiro com o nariz. Ah, eles são quentes. Quentes demais, apesar da água em gelo escorrendo pelo meu corpo. Quentes pelo sangue que ainda corre poderoso e violento em minhas veias – o que me causa certa ponta extremamente fortificada de alegria  revigorante. E lembro da leveza suicida que experimentei um dia desses. Encaro-os por mais alguns instantes, tendo erguido minha face. São realmente lindos, aveludados, perfeito para um tom rubro. Não sei mais se tenho coragem de cortá-los, mas a ideia me passa pela cabeça, bastante insinuada pela estética. Mas, não, não o faria. Não por isso e creio que nem por outras situações, é apenas tristeza legítima e passageira, profunda. Logo vai passar. E sinto-os tão frágeis, como folhas de papel que se destruiriam com qualquer movimento bruco de unhas ou dentes. Tenho o desejo de rasgá-los num gume fino e pequeno, somente para contemplar o vermelho-sanguíneo fascinante dominar meu corpo externo; seria um contraste muito lindo, devo dizer, mas um risco muito grande a correr apenas pela paisagem. Não tenho intenção de suicidar-me. Para compensar, arranho-os breve e leve com os dentes, sentindo a pele fina se acanhar com as veias delicadas e verdes. Seria lindo ser criança novamente.

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