A menina que matava caracóis

Filosofias úteis, inúteis e outras coisas que você pode não precisar.

O choro e um grito

Eu queria ser tanta coisa… Impulsiva, delicada, feminina, menos neurótica, garota durona. E queria ter tantas coisas… Tatuagens, piercings, roupas legais. Queria também coragem pra fazer muita coisa. Por algumas vezes acho que minha mãe tem razão em muito do que fala, mas por outras… Não faz sentido, sabe? Fui num evento rockabilly esse final de semana e me senti totalmente por fora. Moças de bandana, rapazes de topete, todos tatuados. Meus olhos não se continham ao passar pela pista e se fixavam automaticamente na dança dos casais.Carros antigos, motos para dar e vender. E eu não conhecia as músicas… Não me encaixava naquela gente. Foi legal, foi muito legal e isso não posso negar. Foi, aliás, incrível, maravilhoso e fascinante – Paulo deve ter inclusive visto meus olhos brilharem por algumas vezes. Mas também foi triste, tão triste… Desde a minha pré-adolescência eu procuro alguma coisa que me acolha, que me agrade. Sempre quis ser diferente. Concordo que – em parte – para chamar atenção, mas nunca segui algo que não me fizesse gosto. Porque eles têm tantas coisas legais? Porque consegue ser daquele jeito naturalmente? Onde arranjam tantos amigos iguais? Que lugares frequentam? Porque eles podem ser assim e eu não? No final, não sou mais que uma pessoa comum. Queria que quem cruzasse comigo na rua apenas parasse para olhar e tivesse uma impressão legal. Mas, não: uso roupas comuns, morro de medo de tudo, sou neurótica e penso demais. Nunca tive cabelo curto do jeito que eu queria. Nunca coloquei um piercing no nariz, não tenho nem segundo furo. Minha mãe não quer, minha mãe não deixa. E não sei nem ser rebelde o bastante pra contrariar… Às vezes, eu paro para pensar no meu futuro. Tenho mil e uma ideias, incontáveis visões do que serei eu daqui a alguns anos: moça de cabelo cortado, colorido, tatuagens, piercings, uma pessoa muito legal. Ou talvez não. Provavelmente eu serei apenas uma jovem comum, com um emprego comum e nada mais que fuja a essa regra. Morrer de medo de sair na rua à noite, ser um pouco inconsequente, ser paranoica e irracional.

Mudando um pouco de assunto, vamos falar dos meus temores. Provavelmente os caros leitores irão rir (e compreendo muito bem isso), mas gostaria que levassem a sério.  Desde de criança, eu faço uso de atitudes ridículas e medíocres. Sempre estava acompanhada de manias como piscar várias vezes ou ‘compensar acidentes’ (se uma mão bate na parede, eu batia a outra também) e minha mãe sempre percebia e me fazia parar, dizendo que não havia motivo para tais ações. Com o discorrer do tempo, o nível foi se elevando: se estourasse uma epidemia, já tinha os sintomas; tinha medo de estar grávida, mesmo ainda sendo virgem (tanto medo que a menstruação até atrasava). Uma vez, minha avó passou uns dias em casa e – meados da visita – descobrimos que ela estava com uma infecção urinária. A partir daí, comecei a ter dores na região da bexiga entre outras coisas. E a pior parte de tudo é que isso me corrói por dentro, porque me equipo com a total ciência da ridicularidade desses atos! Eu nunca sei o que são sintomas reais e o que são causados pela minha mente. Dou graças a Deus toda vez que menstruo, pois comprova que não tem nenhum ser humano crescendo no meu ventre. É a primeira vez que falo disso para um público tão grande e percebo que preciso terminar logo de escrever esse texto, porque esse assunto já está entalado na garganta e me sinto cada vez mais insegura em relação a publicá-lo. Mamãe fala que tenho que lutar contra os medos (embora ela não saiba de todos). Ela também é assim, sabe? Não tenho certeza do quanto já conseguiu melhorar, mas essa não é a questão. Já pedi para frequentar psicólogos, saber o que há de errado comigo porque – me desculpem – mas não é normal. Com licença, preciso de reticências para tomar fôlego… Eu não sei o que fazer. E a tensão pré-menstrual só agrava. Paulo tem me ajudado bastanta com essas neuras, mas não é segredo que a maior parte depende de mim… Eu me gosto, me amo. Então porque não sou tudo aquilo que espero? O choro está aqui, travado no fundo na boca. O choro e um grito. Queria gritar para o mundo me ouvir em notas agudas. Seria extraordinariamente libertador deixar tudo isso se esvair.

Navegação de Post Único

10 opiniões sobre “O choro e um grito

  1. Bianca em disse:

    Não acho que uma pessoa se torne mais legal por ter piercings ou tatuagens. Muitas vezes a pessoa faz porque gosta mesmo, faz para si mesma, mas creio que na maior parte dos casos é uma questão de tentar se auto afirmar. A pessoa não sabe quem é, aí ela cria uma imagem externa totalmente diferente do que ela realmente é, e se obriga a agir de acordo com suas tatuagens e piercings. Depois envelhece, a tatuagem fica meio rachada, sem cor, e aí… já era. Você quer colocar um vestido bonito, mas a tatuagem inconveniente vai aparecer, e você já não é mais aquela jovem querendo se descobrir. Por mais que você seja outra pessoa, a tatuagem te mantém presa numa antiga identidade. Se for pensar, tatuagem é algo meio careta porque atrapalha um pouco as nossas mudanças. E eu adoro mudar.

    • eu sempre gostei de tatuagens.
      e acho que, por mais feia que fique, se você pensar num futuro tão distante e deixar de fazer coisas por causa disso, pode (por acaso) morrer jovem sem fazer nada.
      eu vejo a tatugaem como uma marca. uma marca daquilo que você não quer esquecer.
      faria porque acho lindo, admirável. 🙂

  2. Bianca em disse:

    E como você vai engravidar sendo virgem, doida? Bom, brincadeirinhas também engravidam, realmente… rs.

  3. Bianca em disse:

    Nada contra tatuagens! Até gostaria de fazer uma, se eu tivesse certeza que eu não iria enjoar dela e nem me arrepender (mas acho isso meio improvável…).

    • UHEA.
      é por isso que se deve pensar muito antes de fazer uma.
      e quando fizer, esta tem que prover de um significado muito forte (não o nome de um namorado, por exemplo), porque assim não enjoa. 😀

  4. Bianca em disse:

    E nem fadinhas/borboletinhas/estrelinhas/tribais/duendes etc. HaueAhueAhe

  5. Marcos em disse:

    Eu te entendo. Comigo é exatamente o oposto, gostaria de ser igual a todo mundo e não ser tão extraordináriamente diferente. Daria qualquer coisa para isso.

    • Hoje, depois de 6 anos desse post, posso dizer que todos somos diferentes. Qualquer um que se diga normal, precisa de ajuda médica. Ninguém é normal, Marcos. Seja você, aproveite suas individualidades. Sinceramente? Depois que eu passei a me respeitar, a ser honesta comigo mesma, minhas relações sociais melhoraram MUITO. As pessoas tornaram-se mais doces e gentis – e qualquer um que me incomode, eu corto logo da minha vida que é pra não gastar energia com quem não vale a pena. Todos somos importantes, únicos e é isso o que nos torna tão especiais. ♥

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: