A menina que matava caracóis

Filosofias úteis, inúteis e outras coisas que você pode não precisar.

Degradação

Estava sentada em minha cama, comendo uma maçã verde, quieta a pensar. Havia, há pouco, relembrado os tempos tenros com minha irmã. Eu tenho saudade do que passou. Dos meus brinquedos de plástico, bichos gigantes de pelúcia. Tenho saudade de levar as fotos para revelar. Saudade de assistir às fitas cassete, de correr por aí. Tanta dó ver anos passados, tanta coisa esquecida… O mundo hoje é muito rápido, veloz demais, uma nova invenção a cada esquina. Meus filhos nunca vão ver o que eu vi, conhecer o que conheci. Isso já me explica muita coisa.

Jamais vira o ser humano de forma tão dependente, frágil e triste. Agora, por trás de cada sorriso, cada momento alegre eu enxergo a depressão. Avisto lá na frente a saudade intensa e constante do que já partiu. Contar aos filhos sobre as amizades, assistir a um filme antigo, piadas que só quem hoje vive vai entender. Eu sinto a dor que isso vai causar: concreta e abstrata, o choro arrebatando o olhar. Não seremos mais todos amigos, reunindo-se na casa dos outros num final de semana qualquer. A oitava série, o terceiro ano foram únicos e restaram tantas coisas que queríamos fazer! A falar, a sorrir, a fofocar. Como eu queria poder ter dito àquele menino que gostava dele ou àquela menina o quanto a considerava! E não vai existir a turma toda. Não vai haver a galera. Pois cada um seguiu para um canto, tomou um rumo e diferentes decisões. Os problemas não são mais os mesmos, os interesses se divergem. Sinto-lhe dizer, mas você nunca mais verá quem hoje te faz sorrir ou quem hoje te faz chorar. Não importa se passem dez, quinze ou cinquenta anos – a probabilidade é muito baixa. Sempre tem aquele que muda de cidade, outro que decepciona de surpresa e os vários modos de perder contato. Todos terão de trabalhar e estudar, se manter na pirâmide capitalista que sustenta e – muitas vezes – destrói. Seus filhos não misturarão massinhas de todas as cores até resultar numa bola cinzenta e sem vida, a tecnologia vai se desenvolver e os fará se interessar por outras coisas. Prepare-se, soldado, esta guerra não será fácil. Lembra aqueles desenhos que todo mundo gostava? Pokémon, Digimon, Dragon Ball. É, não vão assistir. Mas e aquelas coisas que você lembra entrar e sair de moda? Pulseirinhas da Jade, elástico de pompom, a incomensurável variação de Barbies? Ninguém mais vai usar. Estará tudo gravado no mais indestrutível material existente na face da Terra, escrito à ferro e fogo, cravado com força sobre humana tão no fundo que homem algum vai conseguir arracar: você. O seu passado, as suas lembranças e o seu coração ninguém pode mexer. Não no que se foi, apenas no que se vai. E eu mordia a maçã verde devagar, tardando em mastigar direito para não me distrair dos pensamento. Só quando cheguei a uma conclusão que voltei os olhos à fruta e vi: sua face manchada de marrom, a carne em processo de oxidação com o ar. E o tempo passando, passando…

Anúncios

Navegação de Post Único

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: