A menina que matava caracóis

Filosofias úteis, inúteis e outras coisas que você pode não precisar.

Arquivo para o mês “setembro, 2010”

Cocô e incenso

 

Aqui vai mais um causo que já aconteceu há um certo tempo: estávamos eu, minha irmã e minha mãe numa rua, esperando meu pai chegar para nos buscar. As três paradas, de mãozinhas dadas, na calaçada. De repente, o que vemos? Um mendigo abaixou as calças, eliminou, num pedaço de pano, seus excretos sólidos – utilizando falas de Luíza – e esfregou no ponto de ônibus! Então – para escapar do cheiro – entramos numa loja meio indiana, sei lá, só pra ficar no cheiro do incenso. Exactly, babies. Cocô e incenso.

Beijinhos,

Letii

Anúncios

Peripécias no casório

Lhes conto agora, as peripécias do casório do meu primo. Pois é, meu primo se casou! *-* Teve festa e tudo o mais. E é da festa que vamos falar: logo no começo – quando todos estavam sóbrios ainda – estavam servindo os aperitivos e eu e minha irmã passamos por uma garçonete.

Eu: O que é?

Garçonete: Bolinho de feijoada.

Eu: *pega o bolinho com tudo*

Minha irmã: Letícia! Pega com o guardanapo, né?!

Só depois disso que eu me toquei que estava em uma festa de casamento – e não em uma festa infantil com coxinhas e copos descartáveis. Pois bem, lembram-se do começo do texto – quando eu disse que todos ainda estavam sóbrios? Exatamente isso que vocês imaginaram! 😀 Um outro primo ficou bêbado, chegou pro irmão e disse: “Olha, é o seguinte: a gente vai bebê, ficá ruim e festejá!”. Minha tia estava andando igual à Emília. Mas o melhor de todos foi o meu tio – que bebeu, me abraçou e disse que eu era filha dele (ainda brigou com a minha mãe por causa disso). UHEAUHEAUHAEUHEAUHAE. Não me aguentava de rir. Por hoje, é só.

Beijinhos,

Letii

Grito de independência

 

Marcelo é uma pessoa difícil. Normalmente, enquanto escrevo, ouço uma música que tenha a ver com o tema – mas, falando de Marcelo, não dá. Não consigo encontrar uma canção que o defina, nenhuma que seja tão séria quanto, nem tão espoleta, nem tão diferente. A primeira impressão que tive de sua pessoa foi incerta: me parecia alguém bacana, mas não tinha tanta certeza. Logo após, jurava de pés juntos que era louco, louco, insano. E o tempo passou… E a segunda impressão se manteu. Até que me chegou um convite para participar de uma peça de teatro. Como isto sempre me encantou, aceitei sem nem pestanejar! E Marcelo era o professor. Ele gritava e xingava mesmo, descaradamente! Mas também era engraçado e dava os parabéns quando a atuação lhe agradava. Marcelo instigava, provocava, pulava e saracoteava. Usava sua samba-canção estampada todos os ensaios (e creio que também todos os dias). Dizia ser o melhor, pedia desculpas por errar, de repente se tornava um gênio, confundia a marcação. Totalmente bipolar. Uma pessoa imprevisível. À princípio, você estranha, sabe? Quem não convive acha esquisito, irritante. Mas você passa por situações, vai aos ensaios, sobe no palco, entra em cena… À princípio, não dá pra entender as coisas que ele diz, as coisas que ele faz. Até apertou a minha bunda de brincadeira e mentiu dizendo que eu gemi! Mas não fiquei brava, não dei um tapa na cara dele. Era tudo uma brincadeira de Marcelo e eu sabia disso. Ele flerta com todo mundo, não tem vergonha, chega chegando e zaz! Ah, e tem olhos verdes. Olhos muito verdes. Verde ácido, para falar a verdade. Olhos verdes que te cortam pelo meio do peito e arrancam fora seu coração com toda a inocência de sua seriedade. E tem olhos verdes que te intimidam quando está bravo. E tem olhos verdes que te fazem rir quando te entretem. E olhos verdes que me fazem querem chorar neste exato momento, ao lembrar de uma ida ao teatro para assistir “O mágico de Oz” com Marcelo e sua turma e – ao abrir a porta para chegar aos assentos – topar com seu rosto. Encarei aquelas íris como nunca. Encarei tanto, num curto período de tempo, que me fizeram sorrir. “Oi.”, eu disse. “Vamos? Tem lugar lá pra você.”, ele respondeu. E não fiquei tão feliz quanto das outras vezes em que o encontrei. Não, não estou apaixonada. Mas, mesmo assim, é amor. Gosto muito dele e me dói sentir saudades – como me doeria por qualquer outro que adorasse tanto assim. E, ao final, tenho de recorrer ao teatro. Aliás, tenho de recorrer a um roteiro de Marcelo e adaptá-lo para poder definir o homem propriamente dito: “Marcelo é incompreensível. Faz coisas de louco. Mas, também, coisas que espantam a todos de tão sensatas. Ele tem saída para tudo… Um dia, eu perguntei: afinal de contas, Marcelo, o que é que é você?”, e ele responderia [em cima de um banco, segurando uma espada]: “Sou independência ou morte!”.

O batalhão

 

Agora é guerra. Um mundo inteiro está à nossa frente e não vamos ficar parados. É lindo, é mágico, é especial. Precisa coragem, garra, gana pra nos seguir – porque não vamos te esperar nos alcançar. A vida não vai passar por nós despercebida, seremos um destaque nessa trilha. Cada um com sua arma, sua lança, seu cavalo. Um por todos e todos por um. Mosqueteiros, escoteiros, guardiões. Soldados marchando em direção ao pôr-do-sol, pois o nascer já deixamos para trás. Nos escondemos por entre as montanhas, saímos de trás das árvores, atacamos com tudo. Um excército invencível. Fardas rasgadas, sujas de terra, de sangue, exibindo ao inimigo as nossas batalhas. É o momento de lutar. Vamos pela direita, pela esquerda, lutamos até a morte, até o fim do mundo! Sem medo, sem se reprimir. Os olhos incisivos encarando o oponente, um sorriso orgulhoso, o coração a mil. Um grito de guerra, um berro de independência, vamos à luta! Todos correndo ao mesmo tempo, na mesma direção, o adversário também se aproxima. Ele tem medo. Sangue, corpos ao chão. Apenas passamos por cima, ajudando uns aos outros de nossos semelhantes. E lágrimas. Lágrimas de alegria, de coragem, de orgulho. Conseguimos. Ganhamos a batalha. Levantem as mãos aos céus, ajoelhem-se, fechem os olhos. Agradeçam, arrepiem. Queremos ouvir a voz de todos cantar músicas diferentes, músicas de vitória, músicas que significam alguma coisa. Não importa se as palavras nãos combineram, formaremos uma canção magnifíca de triunfo! Retomamos o batalhão, nenhum coronel, nenhum capitão: um líder natural. Logo encontraremos outros iguais aos caídos as nossas costas. E marchamos em direção ao pôr-do-sol, pois o nascer já deixamos para trás. Se quiser, junte-se a nós, mas seja rápido – porque não te esperaremos nos alcançar. Um mundo inteiro está à nossa frente e a vida não nos passará despercebida. Somos um destaque. Agora é guerra.

O médico e o monstro

Se a gente parar pra pensar, ninguém sabe coisa alguma, não é mesmo? Ninguém tem certeza, as situações sempre têm dois lados, todo mundo discute o que é o amor. Ah… O amor. Não faz nem uma semana que eu terminei o namoro. Há dois anos eu amava exarcebadamente aquele cara. Já hoje, ainda o gosto, mas não para namorar. Não dá pra definir as coisas, simplesmente não dá. O sentido da vida é viver intensamente. Ah, é? E quem prova? Deus existe. Idiota, eu sou ateu. As três coisas que alguém precisa faezr na vida é: escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho. Nossa, então a Frida Kahlo foi uma vida em vão, já que o acidente de bonde que ela sofreu a impedia de reprodução.

Terminei o namoro e não quero voltar. Sim, posso ser um monstro frio e insensível – mas também posso ser uma mulher forte e independente. Ou um monstro frio e indenpendente. Ou uma mulher forte e insensível. Ou nenhuma das possibilidades. Não dá pra dizer. Me acho uma coisa e o cara ao lado me acha outra. São pontos de vista, incertezas, hipóteses, vontades. É humano. E – no final – sem saber se sou pessoa ou bicho, fria ou independente, Branca de Neve ou maçã envenenada, me encontro no médico e no monstro.

Grama na camiseta

Porque a minha delicadeza com as crianças é simplesmente in-crí-vel. Fui acampar esse fim de semana e nos dividimos em grupos (patrulhões) com lobinhos (crianças de seis até dez anos de idade), escoteiros (dos onze aos catorze), sêniores (dos quinze aos dezessete) e pioneiros (dos dezoito aos vinte um). Ok, os mais velhos comandam o grupo. O problema é que os lobinhos do meu patrulhão tinham formigas saúvas comendo as suas bundas não paravam quietos e já estavam me torrando a paciência. Enquanto eu, minha irmã, uma guia (feminino de sênior) e uma pioneira tentávamos decidir o nome do patrulhão, um dos lobinhos pegava tufos de grama e jogava no lobinho ao lado. Mandava parar e nada. Mandava parar e nada. Mandava parar e…

– OLHA AQUI, LOBINHO! SE VOCÊ NÃO PARAR COM ESSE JOGA-JOGA, VOU ENFIAR TODA ESSA GRAMA DENTRO DA SUA CAMISETA!

A delicadeza de um urso faminto no meio da piracema. *-* Ah, sim. Também teve uma hora que eu disse que faria os lobinhos engolirem toda a grama do chão. 😀 Não queiram estar no meu patrulhão. Nem se você for lobinho nem escoteiro nem droga nenhuma que bagunce e seja inconveniente (porque não tenho paciência para seres bagunceiros e inconvenientes). Senão, eu jogo grama na camiseta de vocês. G_G

Acontecer

Não importa a situação, o lance é saber que as coisas acontecem. Desde esquecer de pendurar a roupa e queimar o feijão até fazer uma grande amizade ou ter o melhor dia da sua vida. Às vezes, eu tenho a impressão de tudo foi tudo muito calculado, que foi de propósito. Porém, outras vezes, parecem apenas acontecimentos aleatórios. E independente de tudo, há o acontecer. Lembre-se mais que muitas coisas não são culpa sua. Certas brigas, se apaixonar e até mesmo certas atitudes tomadas. Há horas em que tem que deixar levar, sem pensar nas consequências. Ir de cabeça, sem se reprimir. Nunca se arrependa do que fez, pois são seus atos que te tornam quem você é. Deixe a onde te levar, permita que a situação corra naturalmente. Não esmague suas vontades. O segredo de quem é feliz, é sacar que tudo simplesmente acontece; e o de quem não é, é esperar que tudo o que se espera aconteça do jeito que se imaginou. Abra mão dessa hipótese. Isso é a vida, amigo. E nada nela vcai ocorrer desta maneira. Não são as mesmas falas, os mesmos gestos nem os mesmos cenários. Não há roteiro, não há ensaios, não há diretor. Você não leva a sua vida, saiba disso. E a surpresa dela é a mágica de todos os dias. 🙂

O hômi

Sentadas no banco de trás do carro, com as janelas abertas, esperando mamãe voltar. Eu e minha irmã curtindo Maria Rita em seus sambinhas. Passou um cidadão ao lado da minha janela, parecia bêbado. Olhou para a minha cara e começou a falar. Morrendo de medo e não entendendo nada do que ele falava, me desesperei. Entrei em pânico, abaixei o volume do rádio, não queria responder. Cutuquei a minha irmã incansavelmente, que também se assustou com a situação e comecei a implorar:

O hômi, Laís! O hômi tá aqui, Laís! Eu não tou entendo nada que o hômi tá dizendo, Laís! Fala com o hômi, Laís! Fala com o hômi, Laís!

Eu não vou falar com o hômi!

Por favor, Laís! Fala com o hômi!

E as duas riram na cara do “hômi” até ele ir embora. O problema é que, quando ele saiu, foi para a traseira do carro (para atravessar a rua) e eu achei que ele fosse assaltar a gente.

Laís, o hômi vai entrar no carro! O hômi vai entrar!

Então tranca! Tranca as portas!

Ai, meu Deus! O hômi!

E ele atravessou a rua e continua sua caminhada talvez sem rumo, enquanto ríamos feito idiotas. 😀 Essa é a história do hômi.

Beijinhos,

Letii

Minhas fotografias

“Estou puxando meus cabelos,
estou rasgando minhas roupas,
estou tentando em manter calma,
sei que mostro isso.
Estou olhando para meus pés,
minhas bochechas estão ficando vermelhas,
estou procurando pelas palavras em minha cabeça.

Porque me sinto tão nervosa,
tentando ser tão perfeita,
porque sei que você vale à pena,
você vale à pena, yeah.

Se pudesse dizer o que quero dizer,
diria que quero te fazer muito feliz,
estar com você todas as noites,
estou te apertando muito forte?
Se pudesse ver o que quero ver,
quero te ver caído num joelho,
case comigo hoje,

(…)

O que há de errado com a minha língua?
Essas palavras continuam saindo.
Eu gaguejo e tropeço nas palavras,
como se não tivesse nada a dizer.”
Things I’ll never say, Avril Lavigne

Uma vez, eu disse que o que queria do amor era aventura. Era sentir-me meiga, ficar envergonhada, pensar nele o dia inteiro. Esse tipo de aventura. Logo após tê-lo dito, declarei ter percebido que já havia alcançado tal desejo. E, hoje, vejo que não. É a história das duas fotos: você só percebe que uma foto está levemente desfocada quando a compara com outra levemente mais nítida. Pode até ser que essa foto mais nítida não esteja assim tão boa  – pois ainda não fora encontrada outra fotografia suavemente mais focada – mas vamos evoluindo, certo? Não conheço tudo em sua essência. E talvez ninguém conheça. Achava que sabia o que era luto e não sabia. Achava que sabia o que era estar feliz pelos outros e não sabia. Achava que amor adolescente era mentira e não era. Amor. Aventura. Amor é aventura, eu descobri isso. Me senti meiga, fiquei envergonhada, pensei nele o dia inteiro. É tudo muito diferente do que eu já havia experimentado, sabe? Muito. É melhor. E, assim sendo, vou preenchendo meu álbum de fotografias, para que a última seja a mais nítida de todas.

Ingá

 

Ingá. Ingá, Ingá, Ingá. Nunca fui para Ingá. Na verdade, nem sabia qeu existia. Ingá… Adoro cidades pequenas, sabia? Apesar de sempre apreciar muito o ar agitado das metrópoles, me encantam as cidadezinhas. O povo tem orgulho do lugar. E da tradição também. Em Ingá tem as rendeiras. Ah, em Ingá tem uma pedra com escrituras pré-históricas. Em Ingá deve ter mais um monte de coisas, mas a reportagem era muito curta e não deu tempo de mostrar muito. Queria que tivessem orgulho assim. Não querer morar em outro lugar… Se tiver que sair da cidade, saber que um dia irá voltar… Orgulho, honra. Queria ter isso também. Ai, ai. Ingá.

Navegação de Posts

%d blogueiros gostam disto: