A menina que matava caracóis

Filosofias úteis, inúteis e outras coisas que você pode não precisar.

Edição Especial – Eu não estou morta (final)

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Capítulo V – A simples, maldita e linda tatuagem da Betty
(final)

Meninas, suponho que tenham sentido a falta de Leonardo nesses últimos dias.
Sentimos.- Afirmou Betty.
Ele não aparece há dois dias.- Eu completei.
Tenho uma notícia sobre ele para dar à vocês.
Segurei a mão de Betty, apertando com força. Betty fez o mesmo.
O Leonardo… Ele… Faleceu esta noite, durante a madrugada.
Meu mundo desabou! Como poderia eu viver sem o Léo? Sem aquelas brincadeiras de mau-gosto? Sem o Léo? A Betty me abraçou. Só então, percebi que os pais de Léo estavam lá. A mãe dele estava com o rosto todo inchado e vermelho. O pai segurava a cabeça dela no ombro, tentando consolá-la. Saí correndo para o banheiro. Me tranquei em um box e lá fiquei. Gastei um rolo de papel higiênico enxugando minhas lágrimas. Ouvi o barulho da porta se abrindo.
Liz?
Era a Betty.
Liz, saia daí, eu sei onde você está.
Abri a porta do box e abracei Betty com toda a força que me restava.
Bê… Me fala que isso é só um pesadelo…
Desculpe, Liz, mas isso infelizmente não é um pesadelo.
Porquê, Bê? Porquê?
Porquê a vida é assim, Liz. Pessoas vão, pessoas vem, mas a vida sempre continua. Muitas vezes não temos chance de dizer “Adeus”, mas a vida é assim… Simplesmente assim… Vem, Liz, vamos sair daqui.
Quando saímos, encontramos os pais de Léo. A mãe dele me abraçou e disse que estava tudo bem, para eu me acalmar. Eu perguntei à ela o que Léo tinha feito quando chegou em casa.
Em casa?- Ela perguntou.
É, ele não morreu em casa?
Não, Liz. Ele ficou internado.
Ele não ouviu a mensagem que eu deixei no telefone?
Não, Liz.
Me senti culpada. Parecia que uma melancia estava sobre a minha cabeça.
Do que ele morreu?- Betty perguntou.
Ele… Havia feito uma tatuagem sem nossa permissão e… Teve infecção generalizada, ela já estava muito avançada, ficar no hospital só aumentou seu tempo de vida por alguns minutos.
Olhei para Betty. Ela assentiu com a cabeça, lembrando da conversa de ontem. Logo depois, o diretor apareceu. Disse que poderíamos ir embora mais cedo. Eu e Betty fomos até a portaria. Liguei para minha mãe. Contei o que havia acontecido. Minutos depois ela estava na porta da escola. Quando ela saiu do carro, corri até ela e a abracei como nunca havia abraçado.
Calma, Liz, calma…- Ela dizia enquanto também chorava. Minha mãe entrou no colégio, abraçou Betty e consolou os pais de Léo. Ficou sabendo a causa e o local da morte.
Vamos, Liz.- Ela disse.
Tchau, Betty. Se cuida.- Eu disse.
Até a próxima, Liz.
Entrei no carro. Não disse uma palavra até chegar em casa. Chegamos. A bicicleta ainda estava largada no quintal. Joguei meu material na sala. Subi correndo e me tranquei no quarto. Liguei o rádio e coloquei no último volume. Me joguei na cama e chorei até a hora do jantar. Alguém bateu na porta. Eu a destranquei e dei de cara com meu irmão, que me abraçou assim que me viu.
Liz, seu amiguinho vai voltar, né? Porque se ele não voltar, você vai ficar triste pra sempre e eu não quero ver você assim…
Não, Gu, ele não vai voltar.
Você vai fica triste para sempre?
Não sei, Gu. Talvez sim, talvez não… Agora tudo é possível…
Não fica triste, Liz, eu fico com você.
Valeu, Gu.
Me deitei na cama com o Gustavo. Ele acabou caindo no sono. Eu o cobri e o abracei. Também dormi. Acordei no outro dia. Acordei tarde. Achei estranho. O Gu não estava mais do meu lado, além disso, estava muito claro para ser a hora de acordar. “Ai, caramba! Eu faltei na escola!”, pensei. Eu não podia faltar na escola! Precisava saber se a Betty estava bem! Me vesti com qualquer roupa que encontrei, nem lembrava a cor do meu sutiã! Peguei a bicicleta e pedalei mais do que rápido para a escola. O porteiro não me deixou entrar na segunda aula, porque eu havia me atrasado uma hora. É claro que fiquei desesperada! Contei o que havia acontecido e o porteiro disse: “A vida é assim, Liz. Pessoas vão, pessoas vem, mas a vida sempre continua. Muitas vezes não temos chance de dizer ‘Adeus’, mas a vida é assim…”. Reconheci aquelas palavras! Betty havia me dito isso ontem!
Onde o senhor ouviu isso?
Uma garota chamada Betty ligou hoje cedo e me disse que se uma menina afobada e desesperada aparecesse por aqui, eu deveria dar esta mensagem. Suponho que seja você.
Sim… Sou eu… Ela veio hoje?
Não sei.
Posso entrar?
Só por causa de tudo isso que está acontecendo com você.
Tudo isso?
Seu amigo faleceu ontem, não?
Obrigada.- Eu não queria tocar naquele assunto.
Entrei correndo no corredor. Abri a porta da sala de aula sem bater. Não vi Betty. Deixei meu material cair no chão. Corri para o pátio. Peguei o celular e liguei para a Betty. A empregada atendeu.
Alô, Glória? É a Liz, eu preciso urgentemente falar com a Betty!
Iihh, fia. A Elizabeth tava pra módi muito mal. A dona Amélia teve que levá ela inté o hospital.
Desliguei o telefone. A professora apareceu com o meu material no pátio. Disse que sentia muito pelo que havia acontecido ontem e perguntou se eu queria ir embora. Eu nem respondi a pergunta: peguei meu material e fui embora.
Boa sorte!- Disse o porteiro quando eu passei por ele.
Pedalei até a esquina, foi quando me toquei que não sabia para onde estava indo. Estava sem rumo. Em qual hospital deveria me apresentar como amiga de Elizabeth Corel? Liguei para o celular da Betty. A mãe dela atendeu chorando.
Alô?
Dona Amélia? É a Liz!
Liz! Que bom que ligou! A Betty está…
No hospital, eu já sei…
Me desculpe não te avisar antes, é que com todas essas coisas acontecendo…
Está tudo bem, só que diga em que hospital ela está?
No Hospital São Francisco, no quarto 433.
Obrigada, já estou chegando aí.
Desliguei. Fui direto para o hospital, não parei pra nada, nem pra esperar o semáforo ficar verde. Quando cheguei, disse que ia visitar Elizabeth Corel, e que era a melhor amiga dela. A enfermeira mal me deixou entrar e eu já estava correndo pelo hospital procurando o quarto de número 433.
Betty!- Eu gritei quando entrei no quarto e vi a Betty na cama.
Oi, Liz…- Ela disse, ofegante.- Que bom que você veio…Recebeu meu recado?
Sim, recebi! Ai, Bê…
Vamos deixá-las sozinhas.- Disseram os pais da Betty, então, eles saíram da sala.
Bê, me desculpe, eu não deveria ter deixado você fazerem uma tatuagem sem seus pais deixarem!
Liz, não comece com todo esse drama de filme, você sabe que eu não ia te escutar…
Mas, como eu vou viver sem vocês dois? Eu não tenho mais amigos!
Liz, você é uma garota super legal, vai ser fácil arranjar amigos…
Pra você é fácil dizer isso, você nunca repetiu de ano e nem sofreu quinze micos a cada dia que passava…
Liz, eu sei que você vai arranjar novos amigos…
Betty, eu não vou conseguir dormir à noite, eu vou chorar muito…
Chore. Os seres humanos precisam chorar, é assim que demonstramos nossos sentimentos… Chore o quanto quiser, chore na escola, no quarto, no banheiro, onde você quiser, só não chore para sempre…
Tá… Eu vou chorar!
Liz…
O que foi?
Obrigada por ser minha amiga, por me acompanhar sempre, e, por favor, me perdoe se eu te fiz alguma coisa…
Você nunca fez nada de mal pra mim, Betty! Eu é que devo ter feito algo pra você…
Imagina, você não fez nada…
Pois é… A vida continua…
A vida continua…
Silêncio por alguns segundos.
Liz, me promete uma coisa?
Claro que prometo, Bê!
Promete pra mim, que você vai acordar todos os dias, se olhar no espelho e se orgulhar por ser a melhor amiga do mundo?
Só você pra dizer essas coisas, Betty…
Promete?
Prometo.
E também me promete que você não vai se sentir culpada por tudo o que aconteceu?
Prometo.
E que você nunca, nunca, nunca vai ficar sem amigos?
Prometo, Betty.
Então meu tempo aqui foi bem sucedido! Obrigada, Liz…
Por nada!
Ah, mas me promete uma coisa muito importante!
O quê?
Promete que você vai continuar a ser a mesma garota extrovertida, azarada,
cheia de camisetas sujas e sutiãs coloridos que você sempre foi!
Dei risada.
Claro que sim, Bê, principalmente a parte dos sutiãs coloridos!
E a parte do azar?
Essa nem tem como eu não ser!
Betty começa a tossir sem parar.
Bê, você está bem?
Liz, lembre-se, curta a vida, afinal, você não está morta… Pode mudar as coisas…
O coração dela pára de bater.
Bê! Bê, responde!- Eu fico chacoalhando a Betty, mas ela não reage. As enfermeiras chegam na sala, os pais da Betty choram mais ainda.
_________________________________________________

Cheguei em casa e chorei. Chorei na sala, no quarto, na cozinha, no banheiro, na casinha do Roliço, no quintal, na porta do vizinho, na garagem. Fiz o que a Betty pediu. Chorei. Quando cheguei na escola, tive uma surpresa: no corredor, os alunos abriram caminho para mim, a professora de biologia me abraçou, recebi algumas flores e muitos pêsames. Conheci algumas pessoas novas, mas, por causa da situação, acho que demorarei alguns dias para me socializar.
No enterro do Léo e da Betty (os dois enterros foram no mesmo lugar), eu coloquei as flores que recebi no colégio nos caixões deles, no caixão do Léo, eu coloquei uma das fotos que ele mais gostava: Eu com a cara suja de bolo de baunilha; e no caixão da Betty, eu coloquei um papel, na verdade, um bilhete com três palavras, para ela nunca esquecer que “A vida continua…”.
Depois de algumas semanas, eu já tinha dois novos amigos: a Bia e o Joca. Nessas semanas, eu também descobri uma coisa: o Roliço, na verdade, era Roliça! Mas, não era por isso que ele, digo, ela estava gorda, ela estava gorda porque é gorda mesmo!
E se você querem saber, sim, eu fiz minha tatuagem! Claro que não foi com o Reinaldo! Mesmo porque, ele foi processado e preso! Por isso, se algum dia vocês virem uma garota com uma tatuagem de um cinto verde-limão na cintura, não pergunte como ela conseguiu convencer a mãe a deixá-la fazer uma tatuagem, só levante a camiseta dela (que provavelmente estará suja) e em cima do cinto verde-limão, você verá uma frase tatuada mais ou menos assim: “Achou o cinto estranho? É por que você ainda não viu a sola do pé…”.

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4 opiniões sobre “Edição Especial – Eu não estou morta (final)

  1. Anitta** em disse:

    Caramba, a história quase acabou por falta de personagens…no próximo livro, mata mais gente, tá?!

    heuheuheueheuheuehue

    òtima história!

    Té mai,
    Theo**

  2. Paulo em disse:

    kra amei a historia

    parabens!!

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