A menina que matava caracóis

Filosofias úteis, inúteis e outras coisas que você pode não precisar.

Desistência

 

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Sinceramente, eu não sei o que houve. O toque fantasioso de deleite do violino me conduz por um fio de dor muitíssimo implícito, mas dilacerante. Ninguém acredita no que eu falo. Ninguém quer entender o que eu digo. Sinto-me tão extremamente culpada por dizer que sou sozinha – quando há uma família inteira querendo meu bem e gente tão preciosa zelando tanto por mim. Mais uma vez, digo que meu problema e ser consciente demais. É uma tristeza estreita e de um negro brilhante que percorre a música e penetra em mim, causando uma agonia torturante por não se deixar identificar. Sinto-me tão extremamente culpada, mas as pessoas não querem raciocinar o que eu digo. A pronta reação de todos é agir como se o problema fosse algo tão pequeno e de tão pronta solução que negam quaisquer outros adjetivos que eu cuspir.

Sinceramente, eu desisti. Desisti de falar com qualquer um. Com meus pais, com o Matheus – minha irmã, nunca tentei porque não vale a pena, afinal, “eu estou assim porque nunca sei fazer nada”. Não posso ser mas verdadeira quando falo que adoroamo a ajuda que todos eles querem me dar – mas não suporto mais. Sabe o que é NADA adiantar? Eu fico bem por aquela noite e pronto, acabou. Tentei falar com psicólogos (duas, para ser mais exata), mas posso passar a semana inteira ensaiando e sentindo TUDO o que quero dizer e certamente sairei de lá sem ter contado um terço do que planejava. Eu não consigo mais falar com as pessoas. Eu não consigo mais organizar meus pensamentos. São crises de choro espontâneas, oriundas de fatos tão cotidianos e ridículos os quais me envergonham dizer por tamanha insignificância; são ataques de ansiedade antes de dormir, sentindo a solidão e o medo unirem-se e me inflarem de fora para dentro, levitando-me numa corrente de terror tortuoso. Não desisti da vida, não. Na verdade, eu nunca tive coragem para o suicídio  e acho que nem tanta vontade assim. Mas eu me mato, sim, aos poucos. Arranjo-me ainda mais problemas (desnecessários, ainda por cima). Privo-me do sono, corroo-me na fome. Liberto a perdição do olhar em um ponto randômico, a carne murcha por um momento. Entristeço-me de propósito. Já tentei emagrecer até a morte (ao menos morreria mais bonita e as pessoas teriam mais atenção em mim. Inclusive, minha real atenção não era morrer, era ter gente por perto preocupando-se toda a preocupação que eu sempre quis). Já tentei vomitar o almoço em casa e o jantar na faculdade – mas nem para isso eu sirvo. Sou incapaz de provocar o vômito, completamente incompetente. Já tentei ficar na cama o dia inteiro, mas não posso competir com pedidos maternais. E eu não quero falar para ninguém, porque não me trarão atenção: trarão lições de moral, sermões que não desejo, uma preocupação desnorteada por não querer entender o que está acontecendo.

Sinceramente, não me importo [agora] em passar o resto da vida quieta. O que me incomoda é pensar em passar o resto dos dias sem dizer a verdade à minha mãe, maior e exímia protetora de mim de toda a vida. Do meu pai, minha fortaleza de segurança. Do Matheus, minha paixão incondicional e fiel escudeiro. Da Professora Patrícia, minha companheira de voz branda e compreensiva. Não me importo em calar-me o resto da vida ou o tempo necessário – me importa que não me respeito. Entendo que não consiga fazer nada certo, mas respeito é o mínimo da educação e convivência em sociedade. Eu não quero sentir minha insignificância, por mais que ela seja verdadeira. Eu quero um filho, dois, três, para amar alguém que tenho certeza absoluta que me ama também, pois eu lhe darei amor. Quero filhos para saber que posso acertar com alguém. Quero filhos que digam que me admiram, que querem ser como eu. Quero filhos que ache lindos e inocentes. Eu quero acertar com alguém. Eu quero ensinar alguém. Eu quero precaver todos os erros que causei, todas as lanças que me atingiram. Quero cuidar. Sinceramente, não sei mais o que fazer.

Douler noir

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Foi durante as terceira e quarta mortes que ela apareceu. Tentei matar outras crianças, mas Isabella foi tão unicamente perfeita em sua performance que nenhuma outra se encaixava tão bem no mesmo papel. Foi quando encontrei o espelho. Gêmeas, descobri uma raridade. Percebi que eu era uma amostra exclusiva de uma minoria pouco frequente: as ruivas. Mas gêmeas foi uma dádiva. Com todas as tarefas dobradas, foi mais difícil seguir com os planos comuns. Sequestrá-las, apagá-las. Uma moça como eu precisa de muito esforço para carregar dois corpos pré-adolescentes. Desta vez, fui para casa e as amarrei na garagem, em duas cadeiras. Fitei-as até que acordassem, observando suas cabeças caídas com a gravidade, parecendo tão pesadas… Dois pêndulos em chamas. Tive vontade de puxá-las pelos cabelos para fazer as cabeças balançarem um pouco mais, com mais violência. Podia sentir a dor das raízes retalhando o couro cabeludo. O tipo de dor doentia e enjoativa que tem aquele toque de prazer. Contudo, não quis acordá-las. Esperei creio que meia hora até que despertassem sozinhas, uma antes da outra, desesperadas. Não acreditavam que era uma mulher quem fazia tudo aquilo e chegaram a me dizer que eu não parecia má, que não devia feri-las. Isso só me deixou com mais raiva ainda. Sentada à frente delas, com as pernas abertas e as mãos, quebrando os pulsos, apoiadas na cadeira, perguntei se queriam morrer. Elas gritaram, muito alto, chorando. Não prestei atenção quando se desfizeram em prantos e implorações – recordei-me de cada dia de minha vida. Cada agulha que perfurou a minha pele, cada fósforo que me incendiou; cada noite com monstros de medo, cada lençol que se repetia ensanguentado. Tudo se esclareceria mais tarde.

Sua primeira aparição se deu quando uma das gêmeas tombou a cadeira e caiu junto a ela ao chão. Libertei os olhos ao escutar o estrondo, mas a primeira coisa que vi não foi a queda – uma imagem preta, cor que me persegue, que sempre adorei, atrás delas, de nós. Uma mulher encapuzada, coberta de sombras em um quarto de luz; um ponto denso e pesado de escuridão, com uma cabeça nas mãos, com olhos de redoma e cabelo fogoso. Meu corpo congelou-se inteiramente por dentro, por uma crosta fina e torturante de gelo. Cada pulsar do peito enchia o coração de vidro, doía. A única coisa que via era seu rosto pálido de neve, com lábios carnudos em contraste e olhos mergulhados em breu. Ela me encarava, culpando-me, explodindo-me interna com seu grito estridente e quieto. Somente eu o escutava. Somente eu me destruía. Irritada pelo desespero que não em deixava atentar-me à figura negra, assassinei Tereza que havia caído e desfiz sua cabeça em três pedaços, com crânio e cérebro se misturando. A outra se debateu, tentando se afastar, em pânico. Sentindo o ar escorrer em cachoeira das narinas até a boca, ergui o machado, com sua parte traseira apontada para ela e a derrubei em um só movimento. Ela desfaleceu e eu terminei o serviço. Olhei ambas no piso e suas cabeças rachadas. Um desejo de fazer um desenho simétrico com o sangue tomou conta de mim. Eu queria conectar as duas em algum torneio de curvas, em fios. Levantei os olhos, mas não vi a figura de antes. Ela sumira como a escuridão que a envolvia. Procurei em derredor, vasculhando atrás de móveis e tecidos. Sem sucesso, tornei os olhos às gêmeas – para encontrar o breu. Primeiro, avistei seus pés, tão nevosos quanto a face. Depois fui erguendo o olhar, impedida de conhecer seu corpo, bloqueado pelo fosco da capa. Por fim, cheguei o rosto. Agora, mais de perto, ele tinha mais efeito: me diminuía,me quebrava pouco a pouco, em cortes pequenos e demasiadamente doloridos. Franzi o rosto na tentativa de mostrar-me forte perante a dor. Você, ela disse e uma voz distorcida estourou meus tímpanos em sangue, forçando a gravidade a esmagar-me no solo, encolher-me. A respiração acelerou, os pulmões ofegavam sem cessar; meu corpo inteiro reagiu a uma pessoa a quem eu conhecia e tinha medo. Abel. Mais uma vez, Abel.

Isabella

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Eu lembro que… Ela estava brincando ou algo assim. Havia vida nos olhos dela. Aquele tipo de vida pura e imaculada, verdadeira. O formato levemente achatado do nariz, a boca de lábios um pouco finos demais. O rosto redondo, despontando suave apenas no queixo. O cabelo quente se derramava por sua testa, tenro e virgem. Ruiva como eu. Foi a primeira vez que matei uma garota. A princípio, meu alvo seria uma criança por ser mais fácil – assim eu não precisaria controlar tanto meu nervosismo. Mas acho que… Percebi que a escolhi por invejar o que ela tinha. Era injusto, muito injusto que eu tivesse vivido anos terríveis sem merecer ao passo que tantos monstros vagam impunes. Também foi vingança. É inadmissível que todos continuem suas rotinas normalmente enquanto me destruo por dentro, sozinha. Sempre sozinha. Nem em centros urbanos minha solidão era curada. Eu preciso de uma companhia…. De alguém que me entenda… Alguém como eu. Não suporto ficar comigo mesma, eu preciso de outra vertente, outra possibilidade de mim. Uma eu que viva de verdade, que não enfrente tantas tragédias, que nunca tenha caído em desgraça.

Recordo que a observei por um tempo, por alguns dias. Ela gostava de vestidos, daqueles que vão além dos joelhos. Algumas sardas singulares desciam das maçãs do rosto até os ombros e às clavículas. Irritei-me, ela não devia ter sardas. Eu não as tenho, nunca tive. Ao terceiro dia, quando o céu já se coloria com o lilás gélido do final da tarde, eu a agarrei por trás, sem conseguir conter o desejo de cravar as unhas até sentir sua pele sob elas – substituindo a terra que um dia me cobriu. Ela tentou morder minha mão, mas eu a apertei ainda mais. No começo, eu não as matava em casa, nem usava o machado. Na verdade, eu tive dó de usar o machado com a… Isabella, acho que era o nome. Uma garota pequena demais, por volta dos seis ou sete anos – uma machadada dividiria sua cabeça em dois na mesma hora. Não queria que ela ficasse feia. Então eu a joguei contra uma parede algumas vezes, com força, até que ela perdeu a força das pernas. Chorava bastante, eu lembro. Mas eu, não. Eu a olhava fixamente, analisando cada reação que ela tinha. Não as tentava prever porque errar me enraivecia. Quando finalmente percebi que não havia outra saída, que ela já estava debilitada demais, tive pena – muita pena. Achei melhor dar fim ao seu sofrimento – afinal, ela não tinha culpa, nem havia nascido quando eu estava morrendo. Seus pais, sua mãe já desabaria independente de como ela morresse. Havia deixado meu machado em um canto de uma construção abandonada. Uma vez desmaiada, fi buscá-lo enquanto ela ainda dormia. Mas a queria acordada para saber que ia morrer; que ela não chegasse ao Céu sem saber o que havia acontecido, seria cruel demais. Levantei-a e a chacoalhei, até que abrisse os olhos, nitidamente zonza. Afastei-me o bastante para girar a arma e (precisei de três ou quatro golpes, ainda não tinha experiência) decepei sua cabeça. Fitei-a por um instante, notando as diferenças entre o silêncio e os momentos permeados por seu choro baixo. Queria guardar a cabeça para mim, era tão bonita. Mas ela iria se decompor e cheiraria mal. Não sei limpar resíduos humanos. Então, a deixei lá, combatendo a culpa que me esmagava por não levar a cabeça comigo.

Da primeira vez, não senti nada que não fosse o que descrevi. Sem paz, sem alívio de matar que todos pensam que os assassinos tem. Agora eu tinha um título: assassina. Uma palavra tão elegante de dizer, tão fina e sensual, esbelta. A língua sopra, tornando a voz imperceptivelmente estridente quando na terceira sílaba, aludindo ao som da lâmina de uma faca tinindo num breve fulgor. Tão venenosa. E a culpa e o desespero me farão matar mais.

Void

Void

“Então, enquanto rolo em meus lençois,
e, mais uma vez, não consigo dormir.
Saio pela porta e subo a rua,
Olhos para as estrelas
abaixo dos meus pés.
Lembro dos direitos que fiz errado.
Então aqui vou eu.
Olá, olá.

Não há lugar que eu não possa ir.
Minha mente está turva mas
o coração está pesado,
parece?
Perco a trilha que me perde,
então aqui vou eu.

Então mandei alguns homens para lutar
e um voltou no final da noite,
disse que viu meu inimigo,
disse que se parecia exatamente como eu.
Então saí para me cortar.
E aqui vou eu.

Não estou chamando por uma segunda chance,
estou gritando no topo de minha voz.
Dê-me razão, mas não me dê motivo,
porque só cometerei o mesmo erro de novo.

E talvez um dia, nós nos encontremos,
e talvez conversar, não só falar.
Não compre promessas,
porque não há promessas que eu mantenho.
E meu reflexo me causa problemas,
então aqui vou eu.

Não estou chamando por uma segunda chance,
estou gritando no topo de minha voz.
Dê-me razão, mas não me dê motivo,
porque só cometerei o mesmo erro de novo.

Então, enquanto rolo em meus lençois,
e, mais uma vez, não consigo dormir.
Saio pela porta e subo a rua.
Olho as estrelas,
olhos as estrelas por ora
e me pergunto onde foi que errei.”
Same mistake – James Blunt

Estou me destruindo. Consigo inclusive escutar o piso muitíssimo espesso, de azulejos desenhados em vermelho e violeta, quebrando-se, ruindo dentro de mim. Às vezes, é de repente que ele se afunda em V e lança os minúsculos cacos quase em pó em meus olhos. Mas por outras tento contar quantas vezes consecutivas ele estronde enquanto se rompe se parar. Não consigo mais dormir à noite. Não me deixo. Só adormeço quando meu eu rende-se ao cansaço e a tristeza, à solidão. Entretanto, agora é diferente, porque sei o motivo de estar sozinha. Eu me obriguei a isso, obriguei aos outros fazerem isso c0migo. Ultimamente tenho sentido tantas coisas que não sentia mais. Acho. Provavelmente sentia, mas negava, fingia que não entendia, não queria acreditar. Tanta raiva, tanto egoísmo, tanta culpa. Penso que, no final, era para ser assim mesmo. O sono me toma pela fadiga noturna e por abrigar-se no vazio de meu corpo. Os vícios sumiram um pouco… Porque estou me apagando… Estou sumindo… Sinto que estou morrendo. Mas todos nós estamos, certo? É desesperador não saber o que fazer. Não quero fazer tudo isso comigo mesma… Eu pensava que meu maior problema era ter muita consciência sobre quase tudo. Mas acho que é o contrário que está me fazendo tanto mal. E tenho certeza de que há gente contente com isso. Ao mesmo tempo que isso me acende uma raiva ardente, quase esqueço-me da pena que também se cobre em minha penumbra… Eles não entendem a sinceridade de tudo isso.

Vômito

Por que ninguém me ajuda? Por que ninguém olha para mim? Faço a minha parte, mas não adianta vomitar palavras presas no âmago, se ninguém as quer ouvir. Por que não falam sobre isso? Eu sou realmente sozinha?

Cólera (A moléstia da Escuridão)

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Eu quero ser má. Quero ser uma pessoa ruim, terrível. Cultivar desejos doentios pelos outros. Pensar que o mal é tão simples… Que está praticamente tudo ao meu alcance. Meu corpo em movimentos viciantes os quais não posso mais controlar; o pescoço se entorta, as narinas se contorcem, as pálpebras aperta, a coluna vibra. E o choro escondido na linha baixa do olho é violentamente impedido. Sou escrava do vício, da adrenalina da tristeza. Eu senti o metal no odor do sangue maculando minha jaqueta, minha pele. O rubro coagulando embaixo de minhas unhas, e senti como se tivesse matado alguém.  Esfreguei-o sobre minhas mãos, rosando as linhas das digitais. Os nós dos músculos retesados doem tanto. Cada arrepio de frio me machuca. Eu queria lamber o sangue. Perscrutar cada esconderijo do abrigo das mãos com minha língua, encontrar os pontos de plasma acumulado. Como se eu degustasse o gume da faca. Certamente, se fosse assassina, seria serial. E carnívora. Humanamente carnívora. Sentir os nervos nadando nas papilas, cada fio de carne fria num deslize aflito pela garganta. Por que não sinto mais a agonia? A angústia que me consumia viva, que apodrecia meus músculos, forçando-os a encolher ao ponto da dor? Eu quero sangue cobrindo cada centímetro das roupas. Gosto de como ele se mistura ao jeans, criando um vermelho putrefato e lúgubre. Doentio. Como uma assassina em série, carnívora. Gerando medo verdadeiro. Eu caminharia na rua apenas para criar pavor. Os olhares de estranhamento, em pânico, em completa paralisia. E seria certamente hilário, porque deviam saber que não tenho a intenção de matar todos. Não agora. Um assassino serial tem seu alvo. Eu escolheria um, só um de cada vez. Provavelmente alguma menina loira, de cabelos compridos e meio ondulados, bem claros e brilhantes; alguma bem jovem, a partir dos quinze anos, que beirasse no máximo os vinte ou vinte e três, acho. Ela seria bem vestida, com uma saia e uma blusa delicada e colorida, diferente e moderna. Não sei que cor são os olhos, estão abaixados, lendo qualquer coisa – provavelmente mensagens – no celular. Distraída, levada pelo acaso, pelo simples fato de não ter pesos na vida, por não ter – ou melhor, por não se importar – com as preocupações. A vida dela é leve, recheada de gente, indivíduos que não chegam aos pés dela – não porque ela os esnoba, pelo contrário, ela os trata bem e os faz sentir da melhor forma que uma pessoa o poderia fazer – mas porque ela é completamente intocável, inalmejável, inalcançável. Uma deusa por aclamação. Enquanto ela vive numa na luz, sou rodeada por uma aura negra de tristeza e peso, a escuridão genuína da qual ninguém nunca provou. Minhas costas arqueadas pela fadiga de carregá-la. As mãos trêmulas por insanidade, os olhos movendo-se sem parar por terem se embebido no vício – esse termo tão saboroso de proferir, emanante de um pus de veneno de cobra. Carrego Cleópatra no peito, no corpo. As unhas frementes arranhando a mim mesma, como seres de vida própria. Não me pertenço mais. Meu corpo agora é dono de mim, dono de minhas vontades, de minhas sensações e sentimentos. E num papel de bom corpo – na essência mais real do que já foi estudado quanto ao pequeno léxico “bom” – ele exala as tentações de maneira física. E eu sigo. Como um filhote de cachorro que precisa de um dono, sou eu a viciada que segue o corpo atrás de carne, o que, na verdade, torna-se bastante irônico. Ele precisa de fibra, sangue, músculo para viver. Precisa rasgá-los no dente para que o contato seja o mais próximo e o resultado o mais certo possível. Eu quero sentir as veias embrenhando-se entre a gengiva. Ela vai se assustar tão meiga… Vai erguer os olhos da tela brilhante e, de repente, se foi. Avistou-me quando já era tarde demais. Eu não sou nada. Sou mais baixa, de cabelos mais curtos, mais castanhos, menos magra. Não venho de família consagrada, não tenho dinheiro, inteligência. Mas tenho o que ninguém mais tem: escuridão. Sempre sozinha. Eu carrego a decadência do mundo nas costas. Passa um tempo e você se acostuma ao peso, mas ele continua ali. E tenho o breu, a pior das penumbras – feche os olhos e saboreie cada sílaba na saliva: tenho a escuridão – porque pessoas como meus alvos tiraram-me o que me era mais importante, arrancaram de meu alcance tudo o que eu mais precisava e que agora não posso nem almejar: a felicidade verdadeira, pura. Elegerei uma ordem para eliminar os que odeio mais primeiro. Será uma chacina, o mundo todo vai pagar; porque, oras, o resto do mundo também ajudou.

Insano

A alegria da vida agora me parece tão falsa. Não porque estou infeliz, mas porque… Não somos. Criamos uma ilusão de felicidade e acreditamos nela como um deus. Mas é mentira. É mentira. Nós não somos nem nunca seremos realmente felizes. Somos escravos de regras que fingem conhecer a verdadeira felicidade, sendo que nem elas são felizes. Somos escravos do tempo, do trabalho, de esforços que nos dizem ser necessários para uma vida de dedicação e dignidade, quando a única coisa que esses esforços fazem é destruí-las! Talvez sejamos todos loucos. Cada qual em seu espaço próprio, sem deixar que o encostem totalmente. E a inocência infantil parece-me tão falsa. Ela não existe. Nada do que acreditamos existe, porque negamos nossa própria existência. Negamos que sofremos, negamos que somos infelizes – sempre tentando acreditar que tudo pode mudar, mas não vai, apenas pelo fato de que não podemos tomar qualquer atitude sem antes aceitar aquilo que nos rodeia. Sinto-me tão inútil pensando que fui criada e que os pais educam seus filhos esperando-lhes o melhor, mas todos crescem e se enchem de malícia e de perigos que não existiam antes! Todos crescem e tem problemas que não tínhamos! Todos crescem e tornam-se insanos, malucos! E nos prendemos a isso porque esse ciclo de infelicidade, de insatisfação nos prende como um vício, porque é ele que nos faz acreditar que ele mesmo não existe! E tudo vai para o lixo. Porque nada serve enquanto não crescermos… Em qualquer sentido que eu queira ter dito.

Amiga Bárbara

Bárbara, eu gostaria de me desculpar por todas as vezes que dei a entender que não desejava sua presença, por todas as vezes que pareci dificultar as coisas. E devo confessar que não foram apenas as aparências: era verdade. Mas não se choque, o erro não estava em você, estava em mim. Você sabe melhor que qualquer um que nunca fui alguém de muitas companhias e acho que, com o passar do tempo, prendi-me a isso. Entendi que afasto as pessoas e que, para que aquelas que me gostam continuem me gostando, melhor é mantê-las afastadas, pois assim não se aborrecem ou chateiam perto de mim. Eu SINTO falta de uma amiga como você. Eu SINTO falta de VOCÊ. Porque você é aquela que eu sei que pode até se espantar com certas decisões ou atitudes minhas, mas que NUNCA deixará de estar ao meu lado, porque você me ama assim como eu amo você. Não tenho palavras para expressar o quanto TODA a convivência com você me faz falta. Eu me prendi numa cúpula de isolamento, sem amigos genuínos para dizer tudo e qualquer coisa que desejo e nos divertirmos e chorarmos juntos. Transformei minha própria vida num inferno pulsante e não via como escapar; achava que era muito difícil. Mas ontem, hoje, percebi que tudo o que preciso é ter alguém que me entenda. Você não me entende completamente, é verdade – assim como não te compreendo por completo também. Mas ambas temos força de vontade para tentá-lo e ajudarmo-nos como pudermos, porque eu nunca tive uma amiga como VOCÊ. Obrigada, MAIS que obrigadíssima por TUDO. Você vai viajar comigo essas férias. E isso é uma ordem. 😉

O rio de água tenra

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“O que eu gosto no rio mais
é que ele nunca está igual,
a água sempre muda e vai correndo.
Mas não podemos viver assim
e esse é o nosso mal,
e o pior é que acabamos não sabendo

Lá na curva o que é que vem?
Sempre lá na curva o que é que vem?
Quero saber
lá na curva o que é que vem,
eu só vou ver,
aves a voar,
quero entender!
O meu sonho não me diz
lá na curva o que é que vem pra mim?
Que vem pra mim?

Eu não me canso em procurar,
um dia sei que vou ouvir
algum tambor distante que me chame.
E o estável lar que eu terei
irá me proteger,
quero segurança um homem que me ame!

Lá na curva o que é que vem?
Sempre lá na curva o que é que vem?
Quero saber
lá na curva o que é que vem,
eu só vou ver
que cheguei ao mar,
quero entender!
Meu destino está com quem?
Lá na curva o que é que vem?
Lá  na curva o que é que vem?

Que caminho vou seguir?
Qual a melhor solução?
Vou casar com Kocoum
ou devo então casar com quem?

Ou só sentir que meu sonho vive?
E depois da curva..”
Lá na curva – Pocahontas

Eu ouço a água tenra correr em correntes desfeitas, molhando a terra e as margens. A canção inebriante e hipnotizante da natureza líquida me toma por inteiro, por dentro, fazendo-me flutuar. O fogo é bonito e imponente, amedrontador, dominante; mas não supera a serenidade e dedicação da água em sua tarefa de correr do ponto alto ao baixo, explodindo algumas pequenas bolhas e nos embalando num frio aconchegante, quase morno. Eu gosto da água jovem, daquela água tenra como a maciez e moleza de uma pata de filhote de lobo. Posso ver o rio sorrir calmo para mim ao ver-me apreciá-lo. Embora a corrente seja fria, sinto-a muito quente, sem saber a razão. As gotículas embaçam minha visão, as pupilas, fazendo de meus olhos telas para uma nuvem de vapor. Deixo a correnteza me levar, sentindo o líquido incolor enfeitar-me com pulseiras e gargantilhas, e colares de ouro d’água. Ela me corre pelos braços, cobrindo-me o corpo. O nó da garganta não existe mais, ele se derrete no calor. E sou levada sem saber para onde vou. O que é a vida sem destino? Paz. Não sou sozinha. Um espaço limitado de margens gramadas e encharcado por uma veia aquosa, até estreita, me leva. De braços abertos, como Cristo na cruz, imagino que descerei por uma cachoeira mortal. Paro na margem, voltando à realidade e abro os olhos. Melhor desligar o chuveiro.

Pecadora maculada

divination

“Agarre sua arma,
hora de ir para o Inferno
Não sou heroi algum,
culpado como condenado

Procurar e destruir

Encontrei minha fé
vivendo no pecado
Não sou Jesus,
nem você é, meu amigo

Sou uma vadia,
o nascimento de sonhos quebrados
A resposta simples
nunca é o que parece

Em um milhão de pedacinhos
nós nos quebramos
Um milhão de pedacinhos
roubei de você

Procurar e destruir

Vendi minha alma
ao Céu e ao Inferno
Doentia como meus segredos,
mas nunca os contarei

Sou culpada,
peso de meus sonhos
Em uma maldição de fé
e numa benção acredito

Procurar e destruir

Deixe-me ir
Deixe-me ir
Deixe-me ir
Deixe-me ir”
Search and destroy – 30 Seconds to Mars

Como se eu lutasse contra uma morte inevitável. Enquanto meu coração atrofia, caio ajoelhada, sufocando no desespero de uma tortura sádica. Que fraqueza. Eu devia arcar com as consequências, não lamentar o fardo. É o preço por meter-me numa guerra tão vergonhosa. Tem razão em ficarem furiosos: se todos forçam-se a uma convivência triste e decadente, rejena de máscaras, que bons motivos tenho eu para fugir disto? Não cabe a mim decidir ou não a lógica de pagar por algo que não foi feito. Sou uma herege, vadia, prostitua. A escória das almas que se traem e correm, que assassinam a si mesmas. Nada é tão rijo como meu coração de pedra, de músculos plastificados e estrias salientes. Que ousadia essa minha de mostrar-me crua numa essência aérea e carnosa de esperança. Todos arcam e sofrem, que direito tenho eu de revelar-me deste modo? Porque sempre fui diferente. Porque nunca aprendi – por mais que surrassem meu rosto na terra batida até esfolar-me com a poeira – que sou insignificante; que só importa o que está acima de mim. Sou forçada a obrigar-me a prender-me apenas às indiretas sofridas na esperança não-recíproca, incapaz de pedir ajuda. As pessoas boas não se se não enxergam minha sina – mas as que enxergam a ignoram num sarcasmo doloroso e doentio, merecido. Vejo-me, então, sempre perante duas opções: sufocar no veneno empoeirado da garganta aos pulmões, sentindo minhas pleuras secarem e ficarem ressequidas e quebradiças; ou arder nas chamas gritantes do Inferno, atada a um mastro amadeirado e fervente; o feno escaldante queimando cada nervo sensível em meus pés. Bruxa maldita, morra em segredo e celebrarão quando notarem. Culpa sua ficar em evidência. Verme, parasita. Conseguiu o que nenhum de nós alcançou. Vagabundo, pecadora maculada. Seu coração será troféu quando terminarmos de te minar aos poucos, víbora traidora. Renegada, rejeitada.

Sinto-me cansada, acabada, esgotada, exaurida de todas as forças. Ofegante, corro fugindo da fogaréu às minhas costas, ainda sendo possível sentir as cordas em brasa se desfazerem em meus pulsos incendiados. A pele derrete ardidamente conforme a brisa forçada me arrebata. Rufo, lutando, espancando todas as cordas vocais na violência do apertar dos olhos, sufocando. Asfixiando. Nem o choro atravessa o ar negro em minha garganta. Sentindo as lágrimas reprimidas nas maçãs do rosto, em espamos internamente fortes e sem efeito real, caio, atinjo a terra. A rigidez da estrada me açoitando a face. E descubro, então, que o pó do veneno sempre foi fuligem tóxica.

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